Ph: Paloma Amorim

Você já deve, algum dia da sua vida, ter se arrastado para um bar ou uma balada. A vontade de sair estava maior quando você combinou o rolê, e na hora de sair de casa a cama parece te seduzir de forma implacável, convencendo com maestria a trocar sua madrugada agitada e cheia de amigos por carneirinhos e uma solidão providencial.

Mas somos guerreiros, valentes, templários destes tempos modernos e jamais trocaremos nossas sextas feiras à noite por pipoca e netflix. JAMAIS! Ou, pelo menos, até os trinta anos não.

Fato é que nos dias que a farra ganha da cama por muito pouco, falta uma energia pra fazer valer sua escolha. Muita gente recorre às bebidas energéticas na noitada, mas gostam mesmo é de serem gentilmente acordados pela manhã com canecas do nosso ouro negro líquido. Café? Sim, café!

Apesar da maioria das pessoas achar que café e noite não combinam, um mixologista britânico chamado Dick Bradsell encontrou na bebida dos grãos de Coffea arabica a resposta pro desafio lançado em seu balcão. Vou contar.

Uma linda noite de 1983, num bar de Londres chamado de Soho Brasserie, uma jovem cliente chegou ao balcão do Mr. Bradsell ligeiramente jururu. Macambúzia; sorumbática, diriam os antigos. Nos termos de hoje, ela não tava bem. Deu ruim!

Pra curtir a noite ela resolveu apelar para o farmacêutico mais próximo: o bartender!

Ela disse:

“Mr. Bartender, I want a cocktail to wake me up, and then fu*@& me up!”

Pra quem faltou o Yazigi, essa moça pediu um cocktail que a acordasse e depois a derrubasse. Dick Bradseel não pensou duas vezes. Ao lado de sua estação de cocktails existia uma máquina de café espresso, e, por consequência, grãos de café pra tudo quanto é lado de sua estação de trabalho. Dito isso, fica fácil imaginar que teremos um cocktail de café.

Outra informação interessante é que a década de oitenta (80’s) foi dominada pela vodka na coquetelaria, como hoje temos o gin em altíssma moda. Grandes marcas ganhavam o mercado internacional e fomentavam a produção de coquetelaria. Nessa mesma época os cocktails servidos em taças de martini também dominavam balcões. Misturas que em nada se assemelhavam ao Dry Martini original, mas ganhavam o nome martini somente por serem servidos na taça dry.

Dispensando o gelo da taça Dry após resfriá-la

Voltamemos ao momento de criação do Dick Bradsell. Ele juntou vodka com licor de café, café espresso extraído na hora (sim, quente mesmo), e um toque de açúcar. Bate tudo na coqueteleira e coe para a taça dry previamente gelada.

Hoje, muitos bartenders preferem servir na taça coupe, essa taça vintage (pode chamar de antiga também) de champagne. Fica bem bonito.

Espresso Martini na taça Dry

Por cima do cocktail, por conta do café, forma-se uma espuma espessa de coloração castanha que suporta o peso de três a quatro grãos de café torrado.

Aproveitando a deixa, o café utilizado na receita faz toda a diferença. Assim como a vodka e o licor.

O melhor café a ser utilizado é o café especial. Esse café, como todos os outros que utilizamos para coquetelaria, é sempre melhor com torra média e até três meses de torra. Evite torras escuras. Estas são feitas para cafés de baixa qualidade, com grãos heterogêneos, defeituosos e de momentos diferentes de maturação dentro do mesmo lote, chegando a ter grãos verdes e vegetação. Com a torra escura, o sabor de queimado sobrepõe-se a todos os outros, trazendo amargor e sabores adstringentes à bebida final.

Esbarrando em uma polêmica que merece uma atenção pequena, a palavra espresso, no italiano, remete a alta pressão utilizada pela máquina para extrair a bebida. A palavra expresso, em português, denota velocidade, rapidez. Apesar de especialistas defenderem que a ideia de rapidez venha da pressão para se fazer algo, e de que nos dicionários da língua portuguesa a palavra espresso não aparecer, é bem comum ver escrita assim, com S, honrando sua origem italiana.

Ainda no café, e aproveitando a redundância cafeinada da receita, lembramos que o licor também faz diferença no sabor final. No mercado brasileiro – apesar de sermos os reis do café – possuímos pouquíssimos licores da bebida. A maioria funciona bem na receita, mas evite licores que tenham bebidas fortes na sua base alcoólica. Alguns licores são feitos utilizando cachaça ou tequila, e podem adulterar o sabor final do cocktail. Outros são feitos com sambuca ou amaros italianos. Pra quem é fã de anis, são bebidas em que o sabor de anis é bastante marcante. Na dúvida, e com acesso a um café especial de excelente qualidade, eu faço meu próprio licor. Tá, bom! Eu passo a receita pra vocês. Só rolar pra baixo aí.

Não recomendo utilizar licores cremosos. O creme rouba muito dos sabores do cocktail e acaba criando uma sobremesa ao invés de um drink. Sobremesa até tem no AE, mas é em outra coluna =)

Se tem xarope de açúcar, pode ter xarope de outros sabores, certo? CERTO!

Quem acompanhou minhas outras matérias sabe que a utilização de xaropes como agentes adoçantes abre a possibilidade de levar sabor junto da doçura. E no caso do café, em toda sua versatilidade, recebe bem xaropes de diversas especiarias: canela, gengibre, cravo, noz moscada…

Evite os sabores florais com o café, como lavanda, sabugueiro, violeta.

Agora, pra finalizar, e se você for fã de outros destilados que não seja a vodka, eu sugiro testar nessa receita. Os resultados são bem interessantes. Do Bourbon ao Tequila e o Rum. Neste vídeo abaixo eu faço uma releitura com whisky escocês e xarope de gengibre, mas mando também a receita original para vocês provarem e terem de base. Bons testes e bons drinks a todos.

#Espresso Martini

  • 50ml de Vodka
  • 30ml de Licor de Café
  • 15ml de Xarope de Açúcar Demerara
  • 40ml de Café Espresso recém extraído

Licor de Café:

  • 1l de Vodka Sky
  • 4cm de canela em casca
  • 2 cravo-da-índia
  • Meia fava de baunilha de madagascar
  • 30g de grãos de Café especial
  • 200g de Açúcar Demerara
  • 100ml de Água Potável

MODO DE PREPARO: Deixar durante quatro a seis dias os grãos de café dentro da vodka com os demais ingredientes, exceto o açúcar. Provar todos os dias para manter controle da infusão e agitar sempre que possível. Coar ao final dos dias ou quando provar e sentir necessário. De preferência em um chinois.

Misturar com o xarope de demerara feito de 200g de açúcar com 100ml de água. Esquente a água para melhor dissolver o açúcar, mas não deixe ferver, ou o açúcar pode queimar e amargar o xarope.

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