Vida real não é filme pornô

Esta semana li uma matéria sobre a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, realizando uma análise crítica a respeito do enredo, e do quanto ele pode prejudicar alguns conceitos sobre o saudável e o prejudicial, o real versus a fantasia. Um por exemplo é a forma como o personagem Christian vivencia a sua sexualidade de uma forma agressiva em decorrência de abusos e agressões na infância. Nesta matéria é sinalizado o cuidado que devemos ter quando formulamos o que é saudável ou não em um relacionamento.

Certamente o filme Cinquenta Tons de Cinza não é um filme pornô, mas quando li esta crítica, comecei a pensar no quanto muitas pessoas comparam a sua vida sexual com um filme, como também almejam que este filme se torne realidade cotidianamente.

A pornografia pode ser positiva em muitos aspectos para a sexualidade, pois ajuda no aparecimento de fantasias e no desejo sexual. Mas possui um limiar entre o saudável e o prejudicial. Quando a pornografia está em excesso, podem surgir compulsões e vícios, incluindo aí uma compulsão pela masturbação, dessenssibilizando o ato sexual em si, ou seja, a pessoa pode começar a ter muitas dificuldades em ter uma excitação com outra pessoa, se excitando apenas com o acesso a pornografia.

Outro aspecto que quero ressaltar são as fantasias contidas nos filmes pornôs. Os enredos são repletos de maratonas sexuais, contorcionismos, horas intermitentes de penetração, orgasmos facilmente atingidos, pênis extremamente grandes, mulheres e homens super “sarados”, mulheres “esguichando”  na hora do orgasmo, entre outros detalhes, que podem sim estar presentes em um ou outro ato sexual, mas raramente estão em todos.

O sexo na vida real é bem diferente do que acontece em filme pornô. É pior? Não, pode ser muito melhor que uma ficção, desde que a pessoa consiga desfrutar do melhor que o sexo pode proporcionar: o prazer. E existe uma regra única para se obtê-lo? Não, o prazer é subjetivo, cada pessoa e cada casal que irão desenvolver formas de conseguir chegar ao tão almejado prazer sexual. Quanto mais a pessoa se conhece, percebe o seu corpo e suas sensações, melhor será para alcançar o que se pretende.

Não estou falando que assistir filmes pornôs é errado, mas quando a pessoa começa a querer sempre da mesma forma que se apresenta neles, sempre comparando sua atividade sexual, pode acabar gerando expectativas muito grandes com o (a) parceiro (a) e com o próprio desempenho, e a relação se tornar frustrante.

O casal falar sobre suas fantasias sexuais é muito benéfico, e elas podem ser encontradas tendo acesso a algum filme. A realização destas fantasias pode ocorrer, desde que os dois estejam em comum acordo e certeza do que estão dispostos. O sexo real não é deixar a fantasia de lado, ela pode estar presente nesta busca pelo prazer, mas quem disse que a posição “papai e mamãe” não é prezarosa também?! Inovar, criar estratégias para interromper com a rotina, usar da criatividade, estudar novas possibilidades, tudo isso precisa acontecer para que a monotonia não se torne presente no sexo, mas se a vontade e a busca pelo novo é constante, muitas vezes o simples é deixado de proporcionar prazer, e a busca constante pela novidade pode se tornar cansativa, até as novas possíveis possibilidades se tornarem escassas. Com tudo isso, o sentido de fazer sexo pode ir se alterando, indo em direção de um descontentamento contínuo.

Ler, ver e assistir pornografia pode não ser considerado um ato errado, o que pode prejudicar é a forma como cada um vive a sua sexualidade, e ela não pode ser somente contida pelas fantasias substituindo a realidade. A fantasia e a realidade podem se completar, e não trocar uma pela outra.

Viver a sexualidade da forma mais plena é aquela que o prazer se torna presente, nem sempre do mesmo jeito, com a mesma intensidade, mas com satisfação, curtindo não apenas aquele momento sensacional e diferente, como também o sexo “básico”.

Abraços,

Adriana Visioli

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