Uvas ancestrais, filoxera e muita história

“Conhecer o passado para entender o presente”. Li isso há poucos dias em um artigo sobre a região do Priorato e achei uma das frases que melhor define o mundo dos vinhos.

Sempre brinco que é importante ter a mão um atlas e um livro de história para entender melhor como os vinhos nasceram e mudaram no decorrer dos séculos e hoje decidi fazer um post contando um pouquinho sobre uma praga que quase acabou com nossa bebida favorita: a filoxera! Sim, hoje é dia de aula de história, bebê.

A filoxera é originária da América e por aqui as plantas já haviam desenvolvido certa resistência a ela. O primeiro vinhedo a detectar a filoxera na Europa, ainda no ano de 1863, se localizava no sul da Inglaterra. Logo a seguir outros focos foram localizados na França e outros países, e isso já foi responsável pela redução de 50% da produção de vinhos do Velho Continente.

Mas como essa praga chegou à Europa? Os insetos podem ser transportados de um vinhedo para outro por meio de qualquer material botânico (como podas, mudas, rizomas, folhas e brotos), terra, maquinário (equipamentos e veículos), cachos de uvas, produtos vinícolas (mosto e suco de uva), e até mesmo por pessoas e roupas.

Por volta de 1878, quinze anos após o início da praga e após a perda de 40% das videiras na Europa, iniciaram-se os experimentos com enxertos norte-americanos em vinhas francesas. Como o inseto da filoxera era natural dessa parte do mundo, as vinhas indígenas americanas eram naturalmente resistentes a eles. Suas uvas, no entanto, davam vinhos com menor complexidade aromática e estrutura, e existia relutância dos vinicultores europeus em produzir vinho a partir delas. A solução foi transplantar os rizomas imunes a mudas de Vinis vinífera europeias e replantar todos os vinhedos que foram perdidos.

Essa solução, no entanto, não evitou o impacto no mercado de vinho europeu. Uma videira demora no mínimo cinco anos para estar maduro o suficiente para gerar uvas de qualidade e concentração adequadas. E mais de cinco anos para produzir vinhos superiores. Após a colheita, ainda são necessários mais alguns anos de processo de envelhecimento e guarda até os novos vinhos chegarem ao consumidor final. O que significa que muitas vinícolas, além das perdas financeiras e gastos para a recuperação, ainda ficaram improdutivas por anos, causando a falência de muitos produtores. Até hoje é possível encontrar vinhedos abandonados dessa época espalhados por todo o continente, os chamados mortuários.

Nesta época, com a retirada das plantas contaminadas, muitas espécies se perderam e foram consideradas extintas.

Alguns produtores – que detém condições financeiras e “vocação” para essa função, iniciaram pesquisas mais recentemente e, utilizando-se de tecnologias diversas, incluindo exames de DNA estão conseguindo recuperar algumas destas castas consideradas extintas e que são chamadas de Ancestrais.

Miguel Torres Maczassek, gerente geral da Bodegas Torres, uma das empresas mais envolvidas nesse tipo de projeto disse:

Resgatar variedades antigas é um processo longo e lento e exige muita paciência, horas de experimentação, e uma equipe qualificada de profissionais incríveis. O trabalho é uma mistura entre viticultura e arqueologia. Isso nos dá uma melhor compreensão da riqueza de variedades de uvas que existia antes da filoxera no final do século 19.”

Eu provei um vinho no último final de semana que mescla variedades “comuns” à região de produção com castas ancestrais já recuperadas:

 

Desde 2009, além das variedades típicas Garnacha, Cariñena e Monastrell o corte conta também com duas variedades recuperadas pela família Torres quase um século pós filoxera: Garró e Querol. Um vinho incrível e de personalidade única. Custa R$599,51 no site da Devinum.

Outra curiosidade é que algumas uvas foram salvas dessa praga por terem encontrado esconderijos seguros por anos.

É o caso da Carmenére, que ficou escondidinha no Chile (que possui uma proteção natural de suas Cordilheiras):

Em 24 de novembro de 1994, um ampelógrafo francês chamado Jean-Michel Boursiquot, estava no Chile para o Congresso Sul-Americano de Viticultura e Enologia. E, em visita a um vinhedo local, identificou que, entre as vinhas de Merlot, encontravam-se, misturadas, vinhas de Carmenére. Boursiquot nunca tinha visto, pessoalmente, vinhas de Carmenére, já que estavam teoricamente extintas há um século. Mas ele conhecia suas folhas, conservadas, em algumas coleções.

Merlot e Carmenère estavam de tal forma misturadas nos vinhedos do Chile, ambas sendo classificadas como Merlot, que uma inclusive prejudicava a outra. Com tempos de maturação da uva absolutamente diferentes, ou a Carmenére era colhida ainda verde, ou a Merlot era colhida muito madura. E esses vinhos chilenos, rotulados à época como Merlot, acabavam tendo sua qualidade comprometida por conta disso.

Tanto isso é verdade, que o termo Merlot Chileno era usado, na época, de maneira depreciativa quando comparado ao termo Merlot Francês. Considerava-se esse tal Merlot Chileno uma mutação, de menor qualidade, do “verdadeiro” Merlot.

Com essa descoberta a Carménere alcançou o posto de uva símbolo do Chile e hoje tem excelentes terroirs de cultivo, como Peumo, situado no Vale do Cachapoal. A foto abaixo eu tirei em dezembro na belíssima Viña de La Rosa.

Beleza, Keli… E essa foto de capa do post? O que tem a ver com tudo isso.

Volte duas casas. Aliás, voltei ao começo do artigo: Lembra que comentei sobre conhecer o passado para entender o presente?

Antigamente, quando não existiam as tecnologias de controle e detecção de pragas era comum se plantar flores ao lado dos vinhedos para que elas, mais sensíveis a insetos e outros inimigos, fossem atacadas e alardeassem sobre os riscos que o vinhedo sofria. Hoje há inúmeros outros meios para isso, mas elas continuam lá, embelezando os vinhedos pelo mundo e nos lembrando que os vinhos são sim parte da história engarrafada.

Até a próxima coluna, Keli Bergamo.

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