“Teje preso!”
Essa deveria ser a primeira frase de qualquer manual de smartphone.

Deveria aliás, ao invés de um manual, conter uma bula. Ali deveria a conter as doses máximas a serem administradas durante o dia e outras instruções do tipo, “não opere máquinas enquanto usa”.

Estamos presos, numa cela minúscula, quase sufocante. E nem notamos.

Cada vez mais imersos na tecnologia, ampliamos a rede de relacionamentos virtuais e na mesma proporção restringimos as conversas e abraços.
Dia após dia, estamos ficando cheios de pequenos vazios e de falsos sentimentos.

Nunca se falou tanto em depressão, solidão… Somos jovens doentes, cuja alma encontra-se corrompida.

Vendemos a alma à tecnologia. Elogios se tornaram curtidas e as conversas ficaram limitadas em aplicativos. Estamos presos, numa cela “3×4”. Muitos dias de sol se perdem em meio a mensagens de texto, curtidas e quiçá uns comentários.

No decorrer da semana, tivemos um aplicativo bloqueado pela justiça e prontamente se instalou o caos. Ninguém se deu conta do quanto ainda é bom ouvir a voz do outro, encontrar um bilhetinho escrito à mão.

Bilhetinhos manuscritos… Esses se tornaram relicário. Tem um que guardo na carteira, de tão bonitinho que é.

Qual foi a última vez que você dedicou seu tempo pra escrever uma carta a alguém sem procurar inspiração no “Google”?

Poucos sabem expressar seus sentimentos mandando flores, ou dando um forte abraço. Nem se menciona aquele beijo roubado. A maioria “copia e cola”.

Eu me peguei fazendo isso há poucos dias: copiando e colando a última mensagem de feliz aniversário em um grupo de “WhatsApp”. Logo em seguida minha amiga, autora das felicitações brincou comigo:
-“Olha o plágio!”

Sabíamos que não se tratava de um plágio especialmente, mas de uma mania feia de comprar a coisa pronta que temos adquirido ao longo do tempo.

Me parece que estamos regredindo, cada vez com mais seguidores e solidão, proscritos, por vontade própria daquilo que já fora costumaz.
Claro que nossas relações face a face também podem ser de conveniência, conformistas e narcisísticas, mas ainda não existe aplicativo que substitua o abraço, nem mesmo bateria que tenha a intensidade de um sorriso barulhento.

Somos (ou deveríamos ser) seres instintivamente sociais, mas estamos inseridos num contexto virtual no qual buscamos obsessivamente pertencer ao⁠⁠⁠⁠ maior número de grupos.

No final das contas, estamos sozinhos, numa pequena limitada cela – tela, e antes de pedir o cardápio, solicitamos ao garçom a senha do wi-fi.

Restringimos o açúcar, cortamos a farinha branca, mas o que nos faz mal de verdade continua entre nossos dedos.
Mas a bateria acaba,  o tempo e as pessoas vão embora, enquanto isso andamos por aí, carregando nossas máquinas de solidão.

😉

@jannacamposp

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Nota:

O fotógrafo norte-americano Eric Pickersgill criou uma série de fotografias denominada“Removed”, na qual ele remove smartphones e outros dispositivos digitais de fotografias cotidianas, retratando de forma impactante nossa realidade

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