Um vício chamado mentira

Na última semana estive conversando com um amigo e ele fez uma observação que teve um tom de confissão: “Eu era muito mentiroso. ”

Em um primeiro momento eu confesso que não tinha entendido a amplitude daquela frase, mas ele completou: “É sério, eu mentia tanto que eu mesmo acreditava no que eu inventava, a ponto de ficar em dúvida se eu tinha de fato vivido aquilo ou não. ”

Foi de fato uma das conversas mais intrigantes e reveladoras que já tive com alguém, porque todos certamente crescemos ouvindo nossos pais dizerem que mentir é feio e errado, no entanto, crescemos alimentando pequenas (ou não) mentiras.

Ao contrário do meu amigo, desconheço alguém que tenha se assumido assim. Quase ninguém se descreve como mentiroso, esperamos ver a sinceridade nos outros, mas nem sempre estamos dispostos a oferecer esta contrapartida.

Para uma boa parte das pessoas, ser totalmente sincerosincero - livro é uma experiência praticamente impossível. Segundo o livro “Sincero”, escrito pelo jornalista alemão Jorge Schimieder, é comum mentir mais ou menos umas 200 vezes por dia.  Assustador, não?

Schimieder passou 40 dias sem mentir e descreve esta intrigante e cômica experiência no seu livro, viver sem mentir resultou-lhe dentre outras coisas em um soco na cara por dizer a um amigo que a sua namorada o estava traindo e pagamento a mais no imposto de renda, ainda ganhou no poker e passou por vários outros apertos.

A verdade é que mentimos para nós mesmos o tempo o todo. De alguma forma, estamos presos em uma armadilha criada e alimentada por nós mesmos, porque não queremos ser tediosos de jeito nenhum, e isso torna pequenas mentiras muito atraentes.

Estamos acostumados a mentir. É muito mais fácil ser aceito socialmente aplicando pequenas mentiras do que sendo totalmente sincero. A grande verdade é que as pessoas totalmente sinceras são consideradas grosseiras e malcriadas. Somos parte de uma geração, que quer estar sempre presente, aceita, mesmo que de forma frívola.

Ouvir verdades dói.

E eu sei bem disso porque meu irmão chega a ser ácido às vezes e mesmo conhecendo-o intimamente nem sempre estou preparada para ouvir certas “verdades” que ele não hesita em dizer. Eu e meu espelho sabemos que as calças que eu amava usar há um tempo, não entram mais e que aquela blusa não me favorece nem um pouco, mas eu não estou preparada para ouvir em voz alta o que vejo no reflexo.

A mentira é o mal do século e se evidencia cada vez mais. Ao analisarmos a fundo é possível perceber que temos medo das consequências da verdade, uns suportam ouvi-la, outros não. Isso porque mentir faz parte da vida do ser humano. É um subterfúgio para parecer agradável e aceito.

Mentir é um vício e se torna um ato inconsciente perante situações extremamente simples. A fuga da verdade se torna tão espontânea que cria uma repetição compulsiva. Neste momento criam-se verdades inexistentes.

O que muitos não sabem é que pequenas e constantes mentirinhas podem se tornar um problema patológico. Então, resolvi pesquisar sobre o tema e descobri que há dois possíveis diagnósticos: pseudolalia e mitomania. São dois distúrbios de personalidade que podem – e devem – ser tratados.

A pseudolalia pode conduzir a graves distúrbios de personalidade, podendo a vítima da doença acabar perdendo a sua individuação e viver num mundo real criado imaginariamente, comportando-se de uma forma que dificulta o contato humano.

Enquanto a mitomania é um distúrbio de conduta que pode estar associado a casos de depressão, transtornos de personalidade e em alguns casos podem levar até ao suicídio. O mitômano não mente sobre tudo, e nem tem objetivos de ter vantagens. Ele mente sobre um ponto específico, de onde vem seus problema e carências.  A diferença entre uma pessoa com pseudolalia e mitomania é que o primeiro não tem consciência do que é ou não real.

O fato é que para cada mentira dita já tem outra preparada para a tornar convincente, e a ironia de tudo isso é que para muitos, a realidade vai perdendo cada vez mais sintonia com o real.

Aí andei refletindo, sobre pequenas mentiras, que aparentemente são inocentes e o que elas refletem nas pessoas. As ligações que prometemos retornar e nunca aconteceram, a doença que inventamos só para não cumprirmos um compromisso, o trânsito e os filhos pequenos… Difícil saber qual a mentirinha mais inocente e desagradável que inventamos.

Mas e você, já mentiu falou a verdade hoje?

Cuidado! Olhe para si e faça uma auto avaliação.

Tem gente que anda doente há tempos, e nem percebe…

 

😉

Segue lá: @jannacamposp

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