Tire seus padrões do meu corpo!

Liguei a tv e me deparei com um bombardeio de mulheres lindas e esculturais, peles e corpos perfeitos. Fui até o espelho e me deparei alguns excessos, percebi que estava diante do meu maior algoz.

Refleti sobre o quão “normal” se tornou ver amarras face ao estereótipo “mulher perfeita” estampadas nas revistas e na televisão, onde os padrões de beleza estabelecidos implicam em uma rejeição social ao menor traço de obesidade, já que o padrão de beleza atual, é largamente representado por modelos e atrizes esquálidas.

É inevitável, no entanto, perceber que o registro histórico mostra o oposto do que hoje é aceito como o ideal. O que dizer do desejado perfil das musas renascentistas, por exemplo?

Peculiarmente “rechonchudas”, são representadas mundialmente pela célebre Vênus, retratada pelo renomado pintor Sandro Botticelli. Ou ainda, sem ir tão longe no tempo, seria ideal reprimir as curvas da eterna Miss Brasil, Marta Rocha?

Historicamente, já fomos espremidas por espartilhos, já fizemos permanente nos cabelos, usamos um corte horrível e queimamos a orelha na “chapinha” só porque alguma revista ou passarela disse que era moda. Tantas loucuras cometidas na busca pela perfeição baseada em um desejo narcisista, de nos sentirmos amadas e inseridas na parcela da sociedade que entra nos rigorosos padrões de beleza.

A aparência tornou-se a essência humana: Siga todas as regras para um corpo midiaticamente perfeito e estará a um passo de sua real perda de identidade. Afinal, como disse meu filosofo preferido – Nietzsche:

Nada mais seguro do que ser igual a todo mundo.

Embora os padrões de beleza sejam influenciados pela cultura de cada período histórico, o ideal masculino segue na contramão e continua atrelado ao instinto sexual, justificado pela escolha de bumbuns volumosos, quadris largos e seios fartos, conforme se extrai da leitura de um livro que gostei muito: “Por que os Homens Fazem Sexo e as Mulheres Fazem Amor?”, de Alan e Barbara Pease.

Ainda Nessa linha de raciocínio,  o publicitário Fábio Fernandes, diretor de criação da agência F/Nazca, é incisivo:

Os homens têm uma memória táctil. Não adianta mostrar na publicidade uma mulher linda, mas magra demais, porque eles lembram da sensação desagradável de apertar uma cintura feminina e sentir os ossos.

No entanto, a cruel e exigente ditadura da beleza impõe termos que eu chamaria de “inconstitucionais” (hahaha). Nas vitrines, roupas lindas e diminutas com modelagens cada vez mais retas. Não tem espaço para o meu bumbum? Não tem! Silenciosamente, o mundo da moda diz que eu não me encaixo nos seus padrões retilíneos.

Todos os dias surgem novos supostos defeitos a serem corrigidos, e por consequência novos produtos ou técnicas para corrigi-los, e nós, que lutamos tanto pelo empoderamento feminino, esquecemos que ele deve começar com a auto aceitação.

Percebo ainda que a maior violência é aquela cometida quando abrimos mão de coisas que gostamos por supostamente não estarmos dentro de um pseudopadrão. Parte de nós, conosco mesmas. E nem notamos…

Nem sempre uma barriga negativa significa auto estima positiva. Quando não enxergamos beleza onde não existe o padrão midiático, propagamos a ditadura da beleza e por consequência, tiramos o direito de cada um ser de fato único, com características, qualidades – e por que não, defeitos – próprios.

Ainda diante do meu algoz, enfrentei-o e confesso que gostei do que vi: cada dobrinha, cada linha de expressão. Finalmente, aos 31 anos, percebi que cada “marca” era na verdade a impressão dos bons e felizes momentos que já vivi.

Então, por favor, tire seus padrões do meu corpo! E já adianto: quem decide o certo e errado para mim sou eu mesma. Então não reprima meu batom vermelho na segunda-feira de manhã, não tente cobrir meu decote ou sequer ouse achar que minha calça está justa demais no meu bumbum.

Eu nasci original e não vou morrer cópia.

😉

@jannacamposp

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