Porquê tatuar uma arte exclusiva sua?

Esse tema é daqueles que saem faísca, tamanha contradição de opiniões  à respeito. Vou tentar me manter imparcial aqui, mas adoraria ver a opinião de vocês sobre como lidar com a arte no mundo da tatuagem ein?!

Afinal, no que implica uma tatuagem?

Uma tattoo nada mais é do que arte rabiscada na pele. Ao menos é a forma como deveria ser vista: como arte. A arte de marcar um momento, um pedacinho da sua história, uma lembrança, uma época da sua vida, sua personalidade, uma vontade própria e por aí vai. Agora, a forma como essa arte é tratada mundo afora é o X da questão.

A tatuagem é vista sob várias perspectivas: na visão do tatuador copista, aquele que não elabora desenhos novos; na visão do artista ilustrador, aquele que produz conteúdo em desenhos novos exclusivos para cada cliente, podendo ser em qualquer estilo ou técnica artística; e na visão do cliente. E no quesito elaboração, o desenho tanto pode ser algo inusitado quanto algo mais objetivo, como é o caso da maioria das tatuagens comerciais, as mais bem quistas do mercado.

Referências de tatuagens comerciais (Artistaycoiado)

Então qual seria o dilema nisso tudo?

Bem, desde a escolinha aprendemos que, ao usar de um trabalho alheio, devemos no mínimo referenciar o autor original. Quantas vezes ouvimos dos nossos professores que, se copiássemos um texto da internet, eles iriam descobrir e nós ganharíamos aquele zero bem redondinho? A situação aqui é a mesma. Quando se copia um trabalho alheio você desrespeita aquele que demandou tempo de pesquisa e produção pra criar. (Isso em qualquer área ein galera?!) A forma mais adequada pra se trabalhar, nesses casos, seria:

  • Se você não trabalha com criações, o certo seria referenciar o artista do qual você copiou a arte, pois o mérito da arte e direito de venda sob a mesma é dele;
  • Numa situação um pouco mais favorável, mesmo que você não saiba criar do zero uma arte nova, busque ao menos mudar a ideia em cima da referência original que o cliente trouxe;
  • Trabalhos como releituras também devem, de preferência, referenciar o artista original;
  • Caso você desconheça quem é o autor original, cite que a arte foi encontrada na internet. Isso tira a ilusão do cliente que vê o portfólio e acredita que você faz tal tipo de criação, quando na verdade, nesse caso, não foi você que o fez;
  • Evite ao máximo copiar totalmente uma referência. Cópia é plágio, além de ser uso de propriedade intelectual daquele que criou se for usada sem autorização.

E de acordo com a lei, enquadra-se no que se refere à arte:

“Crime de Violação aos Direitos Autorais no Art. 184 – Código Penal, que diz: Art. 184. Violar direitos de autor e os que lhe são conexos: Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.”

“§ 1º Se a violação consistir em reprodução total ou parcial, com intuito de lucro direto ou indireto, por qualquer meio ou processo, de obra intelectual, interpretação, execução ou fonograma, sem autorização expressa do autor, do artista intérprete ou executante, do produtor, conforme o caso, ou de quem os represente: Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.”

“ § 2º Na mesma pena do § 1o incorre quem, com o intuito de lucro direto ou indireto, distribui, vende, expõe à venda, aluga, introduz no País, adquire, oculta, tem em depósito, original ou cópia de obra intelectual ou fonograma reproduzido com violação do direito de autor, do direito de artista intérprete ou executante ou do direito do produtor de fonograma, ou, ainda, aluga original ou cópia de obra intelectual ou fonograma, sem a expressa autorização dos titulares dos direitos ou de quem os represente.”

“§ 3º Se a violação consistir no oferecimento ao público, mediante cabo, fibra ótica, satélite, ondas ou qualquer outro sistema que permita ao usuário realizar a seleção da obra ou produção para recebê-la em um tempo e lugar previamente determinados por quem formula a demanda, com intuito de lucro, direto ou indireto, sem autorização expressa, conforme o caso, do autor, do artista intérprete ou executante, do produtor de fonograma, ou de quem os represente: Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.”

“Os direitos autorais são violados quando há publicação ou reprodução abusiva, com a utilização excessiva do contratado, tradução não autorizada, a conduta de atribuir para si a obra ou parte dela de autoria de outrem, condutas estas denominadas pela LDA, em seu art. 5º inc. VII, de contrafação.”

Obviamente, estou citando a lei aqui como um objeto de bem público. Quando se trata da lei, principalmente no cunho artístico, dificilmente alguém fiscaliza. E adivinha? No Brasil essa é só mais uma questão onde a justiça não tem embasamento…

Não estamos julgando quem copia ou quem cria ok?!

O importante é fazer a informação chegar à todos. Pois na arte, muitos de nós começamos copiando uma obra ou uma técnica visando se aperfeiçoar, e isso se faz desde o Renascimento. Não sabe desconstruir aquele que primeiro não aprendeu a construir, e isso a arte nos ensina isso grandemente. Assim como nós, artistas, entendemos que é inviável querer que pessoas do mundo todo venham a nós pra marcar a pele e fazer uma criação exclusiva. Menos ainda é de obrigação do cliente entender esses termos e bloqueios, entendemos que cabe ao artista saber orientar o cliente da melhor maneira possível. É como se fosse um código de ética entre os tatuadores. É uma forma de dar os créditos e auxiliar na evolução profissional do artista que trabalhou naquela arte.

Outro fator gritante quando tratamos de uma cópia é o significado da arte e a qualidade final de acabamento da obra. Muitas vezes se copia uma tatuagem sem se pensar no que originou aquele desenho. Sem falar que cada artista tem um traço, uma forma de trabalhar, e mesmo que se copie, a mão, o traçado de cada um é sempre único. (Um dos fatores pelo qual a maioria dos artistas não vende o desenho à parte para que outro tatuador reproduza. Isso evita frustrações no cliente.)

A primeira imagem de cima à esquerda é de criação minha, as demais são reproduções em cima da mesma. Essa criação foi feita em cima do formato do pezinho original do filho da minha cliente, e todos os mini-elementos tem alguma ligação com as demais tatuagens que ela já fez comigo. (Artista: ycoiado)

A primeira imagem de cima à esquerda é de criação minha, as demais são reproduções em cima da mesma. Essa criação foi feita em cima do formato do pezinho original do filho da minha cliente, e todos os mini-elementos tem alguma ligação com as demais tatuagens que ela já fez comigo. (Artista: ycoiado)

  A imagem de cima é de uma criação minha, a debaixo foi reproduzida em cima da mesma. (Artista: ycoiado)

A imagem da direita superior é de criação minha, as demais são reproduções feitas em cima da mesma. (Artista: ycoiado)

 A imagem da esquerda é de uma criação minha, a da direita foi reproduzida em cima da mesma. (Artista: ycoiado)

A imagem de cima é de criação minha, as debaixo foram feitas em cima da mesma. (Artista: ycoiado)

A imagem da esquerda é de criação minha, a da direita é uma reprodução feita em cima da mesma. (Artista: ycoiado)

E o que eu, cliente, tenho a ver com isso?

Bem, já pontuamos aqui a relação criador x copista; a forma como espera-se que as artes sejam divulgadas; a importância do significado que a tatuagem traz para o cliente que solicitou uma criação exclusiva e a possível diferença de qualidade em acabamento na arte de quem criou o desenho original para quem não trabalhou no desenho desde o início. O que nós tentamos passar a você, cliente, é que a tatuagem pode sim ser muito mais do que um desenho! Pode ser muito mais do que um modismo! Pode ser em forma de um rabisco a representação da sua história! Pode ser algo que te represente a ponto de que você não enjoe com o tempo por, um dia, perder o significado pra você. E o mais importante, pode representar um pouco da sua personalidade em algo único que você carregará eternamente na pele.

E então, entendendo um pouco melhor sobre como nós abordamos essa situação, qual é a sua opinião a respeito?

Ref. Portal da educação

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2 comentários

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Gislaine 21 de fevereiro de 2018 - 14:24

Ver a cópia ao lado da original é sem dúvida a melhor forma de mostrar tantos detalhes que ás vezes ” nós leigos ” não prestamos atenção.
Excelente matéria.

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Yasmin Coiado
Yasmin Coiado 27 de fevereiro de 2018 - 13:58

Esse é o intuito, instruir vocês a abrirem os olhos para poderem exigir pelo melhor trabalho que merecem. Fico feliz que tenha gostado!

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