Para os que ainda não me conhecem, meu nome é Licia e sou médica otorrinolaringologista em Londrina/PR. Faço parte do Time AE há pouco mais de um ano e neste mês o meu post não será sobre algum assunto técnico, mas sim pra dividir com vocês como foi a experiência de ter sido contaminada pelo Novo Coronavírus.

Nesse momento parei para analisar como foram esses últimos 100 dias desde que a pandemia efetivamente mudou as nossas vidas. No início do ano, quando as primeiras notícias sobre este novo vírus surgiram, parecia  algo muito distante e que não nos atingiria. Mas quando a doença se espalhou pela Europa já estava claro que não passaríamos ilesos. Mesmo assim a dimensão de como isso nos afetaria estava subestimado na minha cabeça.

Desde então, ajustamos nossas vidas a medida que éramos bombardeados com informações e mudanças de conduta a cada dia. A minha decisão foi de que, por mais difícil que fosse, eu tomaria todas as precauções que estivessem ao meu alcance. Toda a atenção com a higienização recorrente das mãos, limpeza de superfícies, distanciamento social e uso de máscaras e outros EPIs foram tomadas. Apesar de não lidar diretamente pacientes com Covid-19, eu continuei atendendo em menor volume e com o máximo de cuidados. Mesmo sob piadinhas e julgamentos de exagerada ou excessivamente medrosa, o que realmente me incomodava era a percepção de que eram poucos preocupados com a sua própria saúde e com a responsabilidade com o próximo.

Como esperado a pandemia se aproximou e uma frase se tornou recorrente:

Agora os números tem nomes e rostos.

Mas comigo aconteceu uma inversão nesse conceito no dia em que eu virei um número a mais para as estatísticas. Na semana em que o Brasil contabilizava 1 milhão de infectados e em Londrina este número era de mil pessoas, eu fui contaminada pelo Novo Coronavírus.

Por alguns dias eu sentia fadiga excessiva que atribuí a falta de sono e alimentação desregrada. Até que os primeiros sintomas apareceram: obstrução nasal, coriza, dores no corpo e febre baixa. Pouco tempo depois um sintoma mais típico: a perda total do olfato. Coincidentemente, no mês de abril eu escrevi sobre este tema aqui para o site (leia aqui).

Foi uma experiência interessante porque eu subestimava o incômodo causado pela anosmia. A sensação de comer algo e não conseguir distinguir o que se está mastigando é um tanto perturbador. Era possível sentir a textura, a temperatura, a percepção do paladar (doce, salgado, amargo e azedo) mas nada das nuances dos sabores. O olfato é o sentido mais ligado às emoções e lidar com essa deficiência, mesmo que temporária, foi bastante desafiador.

No sexto dia comecei a perceber os primeiros aromas e desde então a melhora tem sido lenta. Como quase tudo referente a esta doença ainda não há dados confiáveis, mas a maioria das pessoas tem melhora desta queixa em pouco mais de um mês.

Graças a Deus eu não tive nada além destes sintomas leves e também nenhuma alteração nos exames. Uma amiga que esteve infectada poucas semanas antes me deu o melhor conselho: “Seja paciente!”. Em todos os sentidos… Assim, fui ser paciente. Fui acompanhada por uma colega infectologista e no meu caso não julgamos ser necessário o uso de medicações específicas além da reposição de uma prévia deficiência de vitamina D. Me dispus a ser paciente também com a doença, não criando expectativas que causassem ansiedade, agradecendo por cada dia que, ao acordar, eu precisava parar alguns segundos e perceber: “Estou bem, obrigada!”

Essa doença ataca o corpo tanto quando a cabeça e também fui inundada com alguns sentimentos. A culpa de ter ficado doente apesar de todos os cuidados, a apreensão de, possivelmente, ter contaminado outras pessoas e o medo dos sintomas se agravarem. Foi então que senti ainda mais gratidão por toda a rede de apoio dos colegas que me ajudaram nas decisões clínicas, das palavra de gentileza e mensagens de preocupação, das orações da família, da ajuda dos amigos mais próximos que dedicavam parte do dia pra me auxiliar no que fosse preciso e dos professores de yôga e atividade física que me orientaram à distância. Com todo esse carinho passei por estes dias difíceis com muito mais otimismo do que preocupação.

O que eu aprendi com tudo isso é que nenhum cuidado é em vão quando pensamos que nosso compromisso comunitário é de não transmitir a doença. Felizmente não houve registro de contaminação nas pessoas com quem tive contato mais próximo dias antes do isolamento. A outra lição que fica é de aceitar que não estamos no controle e o melhor caminho é aprender com adversidades.

Se cuidem e cuidem do próximo para que este período passe com o mínimo de sofrimento possível!

Um grande abraço.

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4 comentários

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Fernanda 30 de junho de 2020 - 05:56

Amei Licia!!!! E fico muito feliz em saber que está bem apesar de tudo!
Fico na torcida de que dias melhores virão e que “a força esteja com vc” !!!! Kkkk
Bjao… fica com Deus!

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Licia Sayuri Tanaka Okamura
Licia Sayuri Tanaka Okamura 30 de junho de 2020 - 18:35

Obrigada pelo carinho, Fer!! Que bom que gostou do texto. Se cuidem bastante e beijos pra toda a família!

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Celso Akasaka 30 de junho de 2020 - 14:12

Fiquei muito feliz com a sua recuperação . Com certeza é pela sua dedicação no dia a dia e os grandes problemas podem ser minimizados e nulos . Parabéns!

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Licia Sayuri Tanaka Okamura
Licia Sayuri Tanaka Okamura 30 de junho de 2020 - 18:46

Muito agradecida por sua mensagem, Celso! Que possamos passar por esse momento da maneira mais tranquila possível.

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