Não mude o outro

Ando intrigada..
Há tempos tenho tentado entender – e talvez nunca entenda – por que é tão difícil aceitar o outro sem querer muda-lo?

Todas as pessoas do meu círculo relacionamento, inclusive eu, sempre tem algo a queixar-se do parceiro, do amigo ou do colega de trabalho. Todos apontam coisas nas quais o outro poderia – e deveria, sob o nosso julgamento – serem mudadas.

Penso que a idealização de um tipo perfeito de pessoa, muitas vezes reflete o que nós gostaríamos de enxergar no outro: nós mesmos.

A verdade é que sempre esperamos que o outro pense e aja como nós agimos, afinal é mais fácil tentar moldar o outro indivíduo do que a si próprio. Tente mudar o outro e seu relacionamento está fadado à frustração e ao fracasso.

Podemos comparar um início de relação com uma viagem cheia de descobertas, do outro e de nós mesmos e isso é tão fascinante que pode ser perigoso, pois faz com que muitas vezes a idealização do outro mascare a sua essência.

Ninguém é tão gentil e amável como se mostra no primeiro encontro. Temos defeitos, o outro também! No entanto, é mais simples esperar – e querer- que o outro mude. Esquecemos por fim, que em todas as relações é necessário existir um ajustamento mútuo, onde se fundem experiências que precisam de constante adaptação, o que não significa que devemos querer que o outro mude.

A justificativa mais fácil é de que a mudança que almejamos no outro “é para o bem dele”, mas na verdade quando o queremos é para nosso próprio bem, para suprir a nossa projeção no outro. É daí que surge a frustração, porque a tentativa de transformar o outro é perigosa: as pessoas apenas oferecem o que podem e são. Ademais, a tentativa de transformar o outro acaba por implicar em algum tipo de imposição, não constituindo uma verdadeira mudança e acaba gerando uma postura defensiva, misturada a sentimentos de insuficiência, impotência e desvalorização.

-Afinal, se tenho que mudar tanto, há algo que possa ser valorizado em mim?

Nós seres humanos, somos influenciados por milhares de fatores externos. No entanto, tomamos como verdade apenas aquilo que nos é mais conveniente, assim impera a concepção romântica das relações: a amizade e o relacionamento amoroso perfeitos, por isso a ideia de querer mudar nossos parceiros nos perturba tanto.

Mas e isso tem jeito?
Acho que tem!

Ao ponto que decidimos encarar uma relação, devemos estar dispostos a canalizar a energia despendida em mudar o outro, para observar a si mesmo, conhecendo nossas próprias necessidades de mudança em relação ao outro, e ao invés de impor mudanças através de críticas, sugerir alternativas comuns, o que pode ser a melhor proposta para um relacionamento de sucesso.

O que temos que ter em mente é que os relacionamentos não são como peças de roupa, que podemos cortar ou ali, embora ajustes sejam necessários em todo e qualquer relacionamento, não deve partir apenas de nossa vontade. Relacionamento não é um veículo no qual você deve assumir a direção, eu o vejo mais como uma gangorra, no qual um ajuda o outro a vê-lo de todos os ângulos e acaba a diversão se alguém descer de uma das pontas.

Mas e aí? O que fazemos com as fraquezas, os problemas, aquelas coisas que não são tão legais?

Ora, nenhum relacionamento começaria se não fossemos capazes de ensinar ou aprender, os relacionamentos são uma deliciosa forma de melhorar e ser melhorado. Mas é importante que entendamos: cada um tem um tempo de amadurecimento, e o que não podemos é machucarmos o outro querendo que eles sejam o que ainda não estão preparadas para ser. Isso não é amor, e sim egoísmo!

Há uma frase de Rubem Alves que traduz exatamente isso:

Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata. Quem tenta ajudar um broto a sair da semente o destrói. Há certas coisas que não podem ser ajudadas. Tem que acontecer de dentro para fora.

Ou seja, ajustes procústicos * podem ser devastadores, promover ajustes segundo nossos interesses na maioria das vezes podem surtir um efeito bem desagradável

Como as pessoas são diferentes queremos promover ajustes segundo nossos interesses e a nossa percepção da vida, pois temos dificuldade para lidar com diferenças. Com frequência tomamos as diferenças como algo perigoso, a ser evitado. Lembre-se que para equilibrarmos uma gangorra precisa ajustar a posição de ambos, ou um lado cai – pode machucar…

Não mude o outro, sob pena de ao fazê-lo perder o que ele tem de melhor! Dê as mãos e caminhe junto, assim você descobrirá sua melhor essência, porque no final, mesmo ouvindo a mesma música, é “cada qual com seu Jorge Ben”.

Beijos de luz
@jannacamposp

*PROCUSTO

Procusto era um bandido que vivia na serra de Elêusis. Em sua casa, ele tinha uma cama de ferro, que tinha seu exato tamanho, para a qual convidava todos os viajantes a se deitarem. Se os hóspedes fossem demasiados altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, e os que tinham pequena estatura eram esticados até atingirem o comprimento suficiente. Uma vítima nunca se ajustava exatamente ao tamanho da cama porque Procusto, secretamente, tinha duas camas de tamanhos diferentes.
Continuou seu reinado de terror até que foi capturado pelo herói ateniense Teseu que, em sua última aventura, prendeu Procusto lateralmente em sua própria cama e cortou-lhe a cabeça e os pés, aplicando-lhe o mesmo suplício que infligia aos seus hóspedes.

(…)Procusto representa, em regra, a intolerância do ser humano em relação ao seu semelhante.
(https://pt.wikipedia.org/wiki/Procusto)

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