Mito ou verdade? Primeira parte…

Depois de quase um ano volto a escrever neste belo espaço informativo chamado Arquitetando Estilos! Aproveito para agradecer novamente minha amiga Fran pelo convite, será um prazer imenso compartilhar algumas boas experiências cervejeiras com a galera toda, tenho em mãos um grande desafio já que o material disponível antes aqui a respeito desta bebida dos deuses é de uma qualidade incrível!

Vamos falar de mitos e verdades? Ao longo destes mais de sete anos de profissão acabei me deparando com uma vasta gama de situações e informações um tanto estranhas, curiosas, mentirosas e engraçadas! Como Hitler pensava no século passado, “repita uma mentira inúmeras vezes até que ela se torne verdade”. O assunto é tão abrangente que vamos dividi-lo em duas partes, para que mesmo com um pouco mais de detalhes, o texto não se torne cansativo, ok? Então vamos lá.

Sabe aquela lenda que a vovó contava quando a gente era criança “cerveja Malzbier faz a mulher dar mais leite”? Então, é mentira, ou se preferir, é um baita mito popular que infelizmente se enraizou na nossa cultura.

Malzbier não faz a mulher amamentar melhor ou ter um leite de qualidade superior, aliás, Malzbier (cerveja de malte traduzido do alemão) nem deveria ser chamado de cerveja porque é uma bebida meio duvidosa, acrescentada de muitas coisas que fogem, mascaram ou denigrem a verdadeira alquimia (estabilizante, antioxidante, corante, caramelo, xarope de açúcar, sua cor, por exemplo, não vem dos maltes torrados), na Alemanha ela é considerada “bebida energética” e possuem graduação alcoólica próxima de 1% apenas. O que faz a mulher ter um bom leite transmitindo alimento e energia ao seu progenitor é simplesmente sua boa condição física e psíquica, o que as mães comem, fazem, bebem e pensam reflete totalmente no alimento que será passado para o bebê, não uma bebida doce miraculosa!

Lembram do vídeo da cerveja feita com gás hélio? Foi muito legal e engraçado na época, os cervejeiros ficavam com aquela foz fininha e se matavam de rir (tente assistir e não gargalhar!), mas infelizmente eu tenho uma má notícia, é impossível fazer bebidas com esse gás já que ele não se mistura a outros elementos. O vídeo foi uma pegadinha de 1° de abril feita pela cervejaria norte-americana Samuel Adams, se você ainda não viu clica no link: https://www.youtube.com/watch?v=UpjDNALg_0c

Cerveja sem colarinho é o seu estilo? Não duvido! Deixa eu te contar algumas coisas, o colarinho não foi feito só para “ocupar espaço no copo”, já teve cliente que brigou comigo por conta disso acusando o estabelecimento de lucrar com tal situação, poxa vida, mal sabia ele que a espuma é essencial à cerveja, ela retém o aroma e a carbonatação por muito mais tempo, por exemplo! “Ah eu não gosto de espuma porque ela é amarga”, isso é uma verdade, faça o teste em casa, tente beber só a espuma num primeiro momento, se precisar molhe um dos dedos da mão e coloque na boca, note que ela é ligeiramente mais amarga que o líquido, geralmente possuindo uma textura áspera (isso é o que mais desagrada as pessoas). Mas a não ser que você esteja tomando uma “Malzbier que faz dar leite”, todas as outras cervejas do planeta terão pelo menos um pouquinho de amargor, já que um dos ingredientes mais legais usados em sua composição, o lúpulo, é obrigatório, essencial e praticamente insubstituível.

Estupidamente gelada ou em temperatura ambiente? Depende de alguns fatores, vamos a eles! “Humm que delícia, essa breja tá trincando”, quem nunca profetizou essa frase ou ouviu de algum amigo? Tenho outra informação que talvez vá te surpreender: quanto mais gelada a cerveja, menos o seu cérebro entende o que está acontecendo, ou seja, mais fácil a danada te enganar e esconder seus defeitos e/ou qualidades, o gelo vai impossibilitar suas delicadas papilas gustativas de sentirem as verdadeiras informações sobre aquele rótulo. Cerveja congelada jamais. Congelou? Sinto informá-lo, mas você perdeu a sua cerveja! Pegue outra, não gele tanto e tente entender a mensagem que ela está lhe enviando. Muito comum ouvir que na Inglaterra as pessoas bebem cerveja quente. Mito ou verdade? Há um pouco dos dois nessa situação. Os ingleses realmente bebem em temperaturas relativamente mais altas (especialmente se comparadas ao nosso padrão), isso acontece por alguns motivos: as Ale deles são feitas a partir de ingredientes muito bem selecionados, ou seja, possuem qualidades sensoriais mais firmes e complexas, além da tradição e um pouquinho da contribuição climática, lá por muitos séculos as pessoas nascem, crescem e morrem bebendo suas cervejas em temperaturas mais frescas, meio que um legado que se passa de pai pra filho, e o tempo, mais friozinho que aqui, também possibilita uma melhor experiência mesmo com o líquido mais quente que o ideal. Como disse, há um pouco de mito e um pouco de verdade nesse assunto. Uma dica é fazer como as pessoas do vinho fazem (uma vez que a cerveja possui propriedades organolépticas tão intensas quanto) caso você não saiba a temperatura ideal de serviço: procure degustar o rótulo levando em conta o álcool da bebida, por exemplo, se a sua cerveja tem 6%, deguste-a próximo a essa temperatura! Quanto mais álcool e complexidade, mais quente recomendamos beber, mas esse é um assunto que certamente falaremos no futuro. Portanto, nem geladérrima, nem fervendo, deu pra entender?

Viu quanta coisa? Por isso eu sempre digo, a cerveja é tão rica e complexa quanto qualquer outra bebida fina, quanto mais conhecimento e informação, melhor vai ficando seu paladar, suas exigências e experiências.

Assim como em qualquer área específica, existem os profissionais (também chamados de Sommeliers) desse líquido milenar, pessoas capazes de te ajudar em qualquer situação. Visite uma loja especializada e dê uma chance ao seu palato. Não engula tudo o que dizem por aí.

Na próxima semana vamos continuar falando sobre esses curiosos mitos, tem tanta coisa legal por vir que eu, se fosse você, não perderia essa sequência!

Fontes: Larousse da Cerveja (Ronaldo Morado, Editora Larousse); Cervejas, Brejas e Birras (Mauricio Beltramelli, Editora Leya).

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