MEU FILHO TEM ALERGIA AO LEITE. E AGORA?

O post de hoje tem como objetivo sanar as mais frequentes dúvidas dos pais de crianças diagnosticadas com APLV – ALERGIA À PROTEÍNA DO LEITE DE VACA.

Confesso que é um tema extremamente delicado em que o médico, além de conhecimento técnico, deve ter a habilidade de colocar-se no lugar do próximo, no caso, de colocar-se no lugar dos pais no momento destas orientações. A relação médico-paciente e a clareza nas informações prestadas é o que vai determinar a forma com a qual esta família  vai encarar tal diagnóstico e como vai lidar com certas limitações inerentes à dieta de exclusão.

A partir do momento da confirmação diagnóstica temos que saber qual  tipo de mediação imunológica ( alergia Mediada por IgE ou Não mediada por IgE – mediada por células) rege a APLV de seu filho.

Vale recordar o post anterior sobre Diagnóstico das Alergias Alimentares.

Por que isso é tão importante?

Simplesmente porque é a mediação imunológica que vai determinar:

1 ) tipo de dieta que deve seguir seu filho e quais  fórmulas são adequadas caso não seja amamentado.

2 ) necessidade de a mãe (nutriz) fazer dieta isenta de proteína do leite de vaca ou não.

3 ) os riscos que a criança corre caso acidentalmente ingira  leite e derivados.

4 ) prognóstico.

Recordando sempre que ALERGIA AO LEITE significa ALERGIA À PROTEÍNA DO LEITE. As proteínas alergizantes do leite de vaca mais relevantes são a Caseína, Alfa lactoalbumina e Beta lactoglobulina. Observem que nem se falou em lactose. Lactose é o açúcar do leite de vaca, portanto vale recordar que é errado dizer Alergia à lactose.

Esse erro básico é o maior causador de acidentes, isto é, de reações alérgicas desde leves a muito graves em crianças com APLV, pelo fato de as pessoas confundirem Alergia à proteína do leite com Intolerância à lactose. Sendo assim, qualquer orientação deve iniciar com a ênfase sobre a diferença entre esses componentes lácteos.

Uma vez que a APLV é uma condição clínica causada por um alimento, seu tratamento envolve não o uso de medicamentos e sim uma conduta exclusivamente nutricional, com o objetivo de evitar os sintomas gerados pela ingestão desta proteína e ao mesmo tempo, mas não menos importante, suprir as necessidades alimentares nestas crianças de tenra idade que têm o leite de vaca como a maior fonte de nutrientes.

Sabemos que não se trata apenas de ganho de peso, trata-se também de desenvolvimento neurológico o qual é determinado pela ingestão de micronutrientes. Nos últimos anos têm se estudado muito as necessidades nutricionais de crianças em seus primeiros mil dias de vida. Esta alimentação vai determinar o futuro de seu filho não somente a curto prazo, mas inclusive prevenindo doenças em sua fase adulta e na velhice. Alimentar adequadamente uma criança proporciona saúde física e mental. Não é isso que almejamos para nossos filhos?

A dieta da criança que tem APLV deve ser isenta de leite de vaca e de alimentos que contenham essas proteínas. Leites de outros mamíferos são muito semelhantes ao leite de vaca do ponto de vista alergizante e jamais devem ser indicados para estas crianças.

O leite materno é o melhor e mais completo alimento para o lactente. Devemos estimular o aleitamento materno também nos casos de crianças com APLV. Até há pouco tempo orientava-se dieta de restrição também para a nutriz. Nos últimos ensaios científicos essa conduta mudou e hoje podemos indicar ou não a dieta materna em dependência de algumas particularidades e mediações alergênicas. Seu médico é quem saberá lhe indicar ou não a dieta restritiva.

Amamentar é um privilégio divino, entretanto nem todas as mamães conseguem fazê-lo adequadamente, por isso a necessidade de complementar ou substituir o leite materno com fórmulas desenvolvidas a partir das determinações do Codex internacional.

Existem vários tipos de fórmulas a serem consideradas nestes casos:

Fórmulas extensamente hidrolisadas com lactose.

Fórmulas extensamente hidrolisadas sem lactose.

Fórmulas a base de soja.

Fórmulas extensamente hidrolisadas a base de arroz.

Fórmulas a base de aminoácidos livres.

Não se pode dizer que uma seja superior à outra. Cada caso tem a sua indicação.

O que posso afirmar é que extratos de soja (os de caixinha e os de loja natural), “leite” de soja caseiro,“leites” de arroz ou castanhas caseiros ou as chamadas mamadeiras de frango, rã ou carneiro NÃO são indicados como alimentos substitutos do leite de vaca nem para crianças com APLV nem para qualquer outra criança em fase de desenvolvimento. Devemos estar atentos a modismos sem qualquer fundamentação científica.

Além do leite de vaca propriamente dito, a dieta deve abranger inclusive os alimentos derivados do leite e que contenham leite em seu preparo.

Felizmente dispomos da RDC 26-15: Lei aprovada pela Anvisa em julho de 2015 – Alimentos  industrializados produzidos no Brasil a partir de 3 de julho de 2016 devem destacar os seguintes alérgenos nos rótulos dos produtos: LEITE, SOJA, OVO, TRIGO, PEIXE, CRUSTÁCEOS, AMENDOIM, CASTANHAS EM GERAL(PISTACHE, MACADÂMIA, AMÊNDOA…) E LÁTEX. E na dúvida, entrar em contato com o Serviço de atendimento ao consumidor – SAC. Isso ajuda muito na hora do supermercado!

Em dependência da mediação imunológica da APLV de seu filho, as orientações podem diferir no que tange aos riscos nos casos de ingestão acidental de leite ou derivados.

As crianças que têm APLV NÃO mediada por IgE são aquelas cujos acidentes não colocam a vida da criança em risco. Ao contrário disto, nas crianças que têm APLV mediada por IgE, mesmo mínimas quantias de proteínas podem gerar reações imediatas desde leves até uma reação grave chamada Anafilaxia com risco de morte caso não seja adequadamente medicada imediatamente.

TODAS as crianças com APLV e seus cuidadores devem ter orientação sobre o que fazer caso ocorram acidentes. As crianças com APLV mediada por IgE necessitam de um Plano de Ação Emergencial, por escrito, contendo as informações e as medicações a serem administradas evitando assim conseqüências mais graves. A Adrenalina é o primeiro medicamento a ser administrado em casos de Anafilaxia, que será o próximo assunto de nossas conversas.

Pensando em prognóstico, as crianças com APLV NÃO mediadas por IgE tendem a atingir a tolerância ao leite mais precocemente que aquelas com APLV mediada por IgE. Quando falamos em tolerância oral, traduz-se em termos leigos, atingir a cura. Cura esta que é para sempre.

A APLV é a alergia alimentar mais freqüente na infância e, na maioria dos casos o prognóstico é excelente. Lógico que existem as exceções e para elas já existem opções de tratamento que INDUZEM A TOLERÂNCIA, como a Introdução gradual dos alérgenos processados (conhecida no meio como “Baked”) e a Dessensibilização (Imunoterapia oral).

APLV existe, pode e deve ser bem manejada para que as famílias/cuidadores se sintam seguros e bem amparados para proporcionar a estas crianças a inclusão segura e não a exclusão social. Qualidade de vida é de vital importância para os nossos pequenos.

Me despeço de vocês já no anseio de escrever o próximo.

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