Média: uma via de mão (não) dupla

Indo na contramão das minhas antigas convicções: Estou experimentando o Kindle há poucas semanas e uma das primeiras amostras de livro que peguei para ler fala exatamente sobre o tema de hoje: média, ou melhor, a curva fora da média.

“O jeito Harvard de Ser Feliz” provavelmente vai ser o primeiro – depois do meu – livro que vou comprar em formato Ebook – a verdade é que tenho um certo preconceito sendo desconstruído porque faço parte daquele grupo de pessoas que gosta de tocar, cheirar e aproveitar o livro físico antes de realmente lê-lo, mas isso é assunto para um outro post.

O que eu vim falar aqui é sobre a média…

Mais precisamente como ela se encaixa em nossas vidas.

Não me considerem arrogante quando eu falo que sempre fui uma criança fora da média – abaixo para algumas coisas e acima para outras. Sempre fui muito inteligente racionalmente: entendia rapidamente os conceitos, gostava de estudar, lia muitos livros…

Em compensação minha inteligência emocional sempre foi muito prejudicada: eu nunca soube lidar com críticas, broncas, ou qualquer tipo de atitude que questionava minhas qualidades.

Afinal tinha algo melhor para ser do que uma criança inteligente?

Tinha, mas isso também é assunto para outro post.

Entre as duas situações que mais me abalaram – ou melhor, me marcaram – eu lembro especificamente de uma atividade no primeiro ano: pintar uma tartaruga e a professora ficar brava porque uma tartaruga aparentemente não tinha as cores do arco íris – como eu tinha tão caprichosamente feito.

E a outra foi quando uma professora me descreveu como chorona para a classe inteira – coisa que eu era, mas meio indelicado da parte dela apontar isso. Onze anos não mudaram minha opinião sobre isso.

No livro que citei acima, o pesquisador fala exatamente sobre como as pessoas não estão acostumadas a lidar com pessoas fora da média, que fogem dos gráficos, que não estão generalizadas e, assim como eu, aposto que muita gente se identificou com seus próprios demônios aí em cima.

Quão chata é uma pessoa na média em tudo? Perfeita mesmo. Ou, ao menos, perfeita aos olhos dos outros: não fala muito, mas fala. Não chora muito, mas chora. Não é espetacularmente bonita ou inteligente, mas até que tem essas características…

E, principalmente, quão feliz uma pessoa assim pode ser?

Por muito tempo eu desejei estar na média. Ou, avançando um pouco mais na vidinha, desejei trocar minha inteligência, esperteza e sagacidade pela beleza. Eu queria ser bonita, não inteligente.

Os famosos valores distorcidos.

E eu também não tinha uma boa autoestima na época, o que me impedia de considerar os elogios que me faziam: que não eram poucos. Eu era divertida, legal, inteligente, brincalhona. E era bonita, não tinha aquela beleza espetacular de parar esquinas, mas era sim bonita.

Só que a gente sempre quer mais do que não tem.

E todos esses comportamentos que eu descrevi tem fundo naquela falta de inteligência emocional lá atrás.

Eu não queria ser tão inteligente ou estudiosa porque isso significava que eu não era igual aos outros. Na minha cabeça, significava que eu ficaria sozinha.

Dessa forma, em vários momentos, eu fingi ser “menos” até perceber que as pessoas “certas” vão me aceitar como eu sou.

Com minhas características abaixo e acima da média.

E se outras não souberem lidar com o que fogem do confortável mediano. Mais do que isso se não estiverem dispostas a aprender, não posso fazer nada.

Finalmente, quando cheguei à faculdade, eu percebi outra realidade:

Eu não era a mais inteligente. Lá eu era elogiada por muitas coisas: esperteza, sagacidade, carisma, dicção, beleza (ah, a doce ironia), independência, responsabilidade, animação. Mas eu não era a mais inteligente e pela primeira vez, não me importei com isso.

Pela primeira vez eu não precisava ser algo a mais para me sentir especial.
Provavelmente porque eu também não tinha nada a menos para me sentir inferior.

Com certeza eu ainda estou bem longe da média, mas grande parte das pessoas que eu convivo também estão, assim como você caro leitor. E não há problema nisso.

Se não sabem ou não souberam como lhe ensinar, eu garanto que a vida sabe. De maneiras muito mais divertidas e memoráveis.

Enquanto isso eu sigo lendo “O jeito Harvard de Ser Feliz” e modificando minhas ideias sobre Kindle.

Quer ler mais textos meus? Clica aqui.

 

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