EU TENHO DUAS MÃES… TENHO FAMÍLIA!

Embora possa gerar polemica e algum incomodo, hoje resolvi escrever sobre um assunto que percebo cada vez mais presente na rotina do consultório.

Penso assim… aquilo que nos incomoda de certa forma nos faz refletir… esta é minha intenção com este texto, pois precisamos urgentemente tratar alguns assuntos com nossas crianças de forma mais tranquila, ajudando as a conviver com a diversidade, ou até aprendendo com elas a fazer isso.

Estamos numa sociedade diversificada, onde as estruturas familiares se modificaram ao longo da história e hoje são reconhecidos novos modelos de família, no entanto algumas instituições frequentadas pelas crianças continuam trabalhando com um modelo único de família (o tradicional – composto de pai, mãe, filhos), nada contra ou a declarar sobre falar sobre esta estrutura familiar, meu incomodo é como vem sendo ignorado o fato de algumas crianças possuírem outros modelos (duas mães por exemplo, ou dois pais, ou avós, ou somente o pai, ou somente uma mãe, ou uma família acolhedora…)

Ao ignorarmos as diversas constituições de família (num trabalho coletivo, realizado pela escola, por exemplo) negamos o direito às crianças que vivenciam estes modelos a sentir se parte de uma família, e se sente, nega-se a ela o direito de fazer parte de uma sociedade que inclui sua família enquanto família, e as outras crianças, aquelas que vivem em famílias em modelos tradicionais de conhecer, conviver  e aprender a respeitar que seu colega tem uma família que se organiza de outra forma e que existem outras formas de família.

Li uma citação que cabe bem aqui…

O AFETO não é fruto da biologia. Os laços de afeto e de solidariedade derivam da convivência e não do sangue. A família atual não é mais, exclusivamente, a biológica. A origem biológica era indispensável à família patriarcal. O modelo patriarcal desapareceu. Seu ciclo encerrou-se após o advento da constituição de 1988. A filiação biológica não é a mais determinante”, ensina-nos Paulo Luiz Netto Lobo.

Resolvi escrever este pequeno texto, em homenagem a dois pacientes que venho atendendo… um pequeno criado por duas mamães (cujo afeto e cuidado chegam a impressionar)… que incomodado com as homenagens do dia dos pais na escola me perguntou se eu tinha um pai… na ocasião me incomodei também, pois o questionamento dele me pareceu a busca por outras pessoas que como ele também não tinham um pai, e no trabalho sobre isso em consultório percebi que em momento nenhum a escola havia trabalhado com os diferentes modelos familiares (faz se o cartão para um pai que não se tem?, entrega para alguém que se elege pai?, como é isso? Não se pode nesta ocasião dizer que algumas crianças tem duas mães ou uma e o cartão vai para mãe? Cheguei até a pensar se é papel da escola trabalhar com esta data…)… e quão feliz (garanto eu é esta criança com suas duas mães).

O outro, já nos seus 15 anos me contou como lida com o fato de ser filho adotivo de uma mãe… um amigo lhe dizia “putz cara faz dois dias que não vejo meu pai” e ele rindo disse ao amigo “cara faz quinze anos que não vejo meu pai”… adequando se ao fato de nunca haver convivido com essa figura. Garanto a quem está lendo e pode estar se questionando, nenhum dos dois vai ao meu consultório por apresentar problemas em relação ao seu modelo familiar…

Embora ainda hajam muitas discussões em relação ao reconhecimento legal dos modelos familiares e dos direitos decorrentes destas uniões, precisamos pensar que estamos em outro momento de nossa sociedade, e faz se  urgente entendermos que AFETO NÃO É FRUTO DA BIOLOGIA.

Paulo LOBO elucida que “A família atual está matrizada em paradigma que explica sua função atual: a afetividade. Assim, enquanto houver affectio haverá família, unida por laços de liberdade e responsabilidade, e desde que consolidada na simetria, na colaboração, na comunhão de vida”

Vamos conhecer, e reconhecer os modelos de família e conversar com as nossas crianças e adolescentes sobre isso, deem espaço para que eles falem… Criança lida muito melhor que muito adulto…

Para conhecimento segue algumas composições familiares:  retirado de: http://www.domtotal.com/direito/pagina/detalhe/32973/novos-modelos-de-familia

Família Monoparental

É a  família constituída por uma pessoa, independente de sexo,  que encontra-se sem companheiro, porém vive com um ou mais filhos. Pode ocorrer do fim de uma família bioparental,  ou seja, como ocorre com as viúvas, separadas, adoção, divorciadas e solteiras que a princípio viviam em união estável, ou até mesmo em casos de ser por opção.

O Estatuto da Criança e do Adolescente, ECA, prevê a possibilidade, independente do estado civil uma pessoa sozinha, tanto o homem quanto a mulher, poderá  adotar uma criança, e assim se tornar uma família, está  disposto no art. 42 do ECA.

Família Nuclear

Era considerado como único e legítimo modelo de família, onde tinha o homem, a mulher e seus descendentes.  Era o modelo inspirado na Revolução Industrial.

Refletia a ideia de sociedade dinâmica e mais produtiva. Pois era um como um núcleo pequeno, onde um chefe provedor do lar, poderia com facilidade resolver questões geográficas ou sociais.

Representando assim, um modelo de sociedade capitalista.

Família Reconstituída

Quando ocorre o divórcio, surge então a chance de uma nova família. Além de juntar marido e mulher, também os filhos provenientes de relações anteriores, vivendo todos sobre o mesmo teto. Seja proveniente de um  novo casamento ou uma união estável, os filhos possuem origens distintas quanto a paternidade biológica. Diante da realidade atual, este modelo tende a aumentar sua incidência.

União Estável

Com advento da Constituição Federal de 1988, a união estável, no passado estigmatizada pela expressão de concubinato, em que a mulher era classificada vulgarmente como amante ou amásia, foi equiparada à figura de entidade familiar.

É definida como aquela formada por um homem e uma mulher livre de formalidades legais do casamento, com o animus de conviverem e constituir família.

Em assim sendo, se a união estável é entidade familiar, como também o casamento, não há como se fugir da conclusão de que as regras do instituto da guarda devem ser aplicadas à união estável.

Família Anaparental

É a convivência de pessoas sem vínculos parentais que convivem por algum motivo, possuindo uma rotina  e dinâmica que os aproximaram, podendo ser estas afinidades sociais, econômicas ou outra qualquer.

Família Eudemonistas

A princípio pode ter uma formação convencional, pais, filhos, mas ao observar sua constituição, nota-se que  em seus indivíduos existe pouco apego a regras sociais que formulam as famílias mais tradicionais, religião, moral ou política.

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