Eu não peguei COVID

É duro admitir, mas essa pandemia mexeu comigo. Me fez oscilar entre céu e inferno várias vezes num único dia.

Na primeira semana da quarentena no Brasil, ficamos totalmente isolados dentro de casa, compra de mercado on-line e o fim de tarde na varanda se tornaram obrigatórios.

Diferente da maioria das pessoas, minha quarentena durou cerca de 30 dias e a única saída de casa nesse período foi para fazer o tal teste RT-PCR – ô benção!

Tudo começou com com a possibilidade de um positivo para Covid em casa e eu, por consequência, fui colocada em quarentena por precaução. Enquanto isso, os noticiários relatavam diariamente as milhares de mortes mundo afora.

Do sofá eu pedia deliveries, até que depois de uma entrega, notei que o motoboy não usou álcool depois de eu fazer o pagamento, entrei em casa e chorei. Eu estava ali, no meu conforto, pedindo minha comida favorita. E se eu estivesse doente? E se eu o contaminasse?

Os dias foram se passando, e estava até gostoso ficar em casa (não fossem as notícias), pipoca no final do dia e maratona de séries e filmes, até o dia que falei com a Rita, amiga querida que mora na Itália. Nesse dia eu fui tragada novamente para o mundo real.

Na TV, as notícias eram aterrorizantes, mas ouvir de alguém querido o que ela estava sentindo naquele momento, foi devastador. Ao passo que ela me descrevia a nova rotina do país, como se encontrava determinados lugares por lá, eu senti a dor e a angústia de quem enterrava os seus sem o último adeus, e de novo, chorei.

Nesse mesmo dia, tive a infeliz ideia de assistir ao filme “Milagre na cela 7” e chorei, de soluçar, estava triste com o que o mundo estava passando, naquele momento eu senti a dor do mundo.

Ainda no Brasil se falava em poucas dezenas de casos, e eu olhava da sacada horrorizada a criançada brincando na rua: “meu Deus, vão pra casa!” eu pensava, “tem gente morrendo pelo mundo e vocês na rua!!”.

Uns dias se passaram, aí o caldo engrossou quando eu comecei a ter sintomas característicos. Assim, emendamos mais uma quarentena (por isso os quase 30 dias), devido à suspeita, que depois confirmou-se negativa.

Depois disso tentamos voltar à rotina normal, que de normal tem pouca coisa: máscara como acessório obrigatório, álcool em gel e tênis (sim, tênis).

Ora, ora.. alguém me explica se conseguir: eu passei a usar apenas tênis, como se fosse necessário correr de algo a qualquer momento. Eu ainda não consigo entender essa estranha mania que desenvolvi: usar tênis e roupas confortáveis. Não sei se é reflexo do tempo que fiquei usando semelhantes a pijama ou se é porque parecia imoral estar muito arrumada na contramão de tanta desgraça acontecendo.

Fiquei nesse estranho “luto” por um bom tempinho, em algum momento eu me perdi em mim. Nas redes sociais, postagens de “TBT’s”, uma enxurrada de TIK TOK’s e desafios de quarentena, e a iminência dos meus 36 anos.

Lá em março eu pensei que poderia ter uma grande comemoração, mas tudo resumiu-se num pequeno e delicioso bolo. Não teve velinha, pois não se pode mais soprar no bolo (aliás, ainda bem..), muitos dos meus amores estavam longe e o parabéns foi tímido. Mas foi lindo, foi gratificante e ressignificante.

Havia poucos dias eu tinha chorado por estar “perto” dos 40. Gente do céu, essa pandemia mexeu com meu canal lacrimal, só pode! Eu sempre amei fazer idade nova, e naquele momento me vi entristecida por ainda não ter atingido alguns objetivos e quando me dei conta que era tolice, eu comecei a rir alto, sozinha e me auto repreendi: “que bocó chorar por isso.” Foi engraçado “me ver” em uma situação tão confusa, com sentimentos tão conflitantes.

De repente, descobri que amo não usar tanta maquiagem, que é muito bom não usar salto, que tudo bem usar moletom, que chorar não é sinônimo de fraqueza e que “tá tudo bem”.

Acho que muita gente levou um “chacoalhão” nessa pandemia, muita gente se reencontrou, ressignificou sua existência, quem ainda não o fez, deveria fazê-lo. Lidar com nossas inseguranças é mais interessante e libertador do que parece.

No fim das contas, eu não peguei Covid, mas a pandemia me pegou de jeito, despertou muita coisa boa que tava guardada e eu nem lembrava.

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