Hoje resolvi escrever um texto informal, mais reflexivo e menos técnico. E vou começar descrevendo uma cena que vivenciei dias atrás em um restaurante… eu estava com uma amiga comendo um lanche quando entraram dois casais e duas crianças, uma deveria ter uns 3 para 4 anos e a outra um pouco menos, os casais se acomodaram à mesa e imediatamente cada qual pegou um celular e ofereceram as crianças que permaneceram ali o tempo em que eu estive ali apenas nos celulares, os casais conversaram, comeram e as crianças não interagiram uma com a outra, comeram sem largar os aparelhos, cada qual ficou “quietinha no seu celular”…

Vamos lá tentar conversar um pouco sobre esse “fenômeno sem volta”…  sem volta, por que o mundo foi informatizado e isso é fato. Não quero aqui “crucificar” os pais e nem fazer apologia contra o uso de smartphones, computadores ou tablets… minha intenção é apenas fazer pensar que temos outras possibilidades que estão se perdendo e que são interessantíssimas do ponto de vista das relações sociais, afetividade, e desenvolvimento. Andamos nos esquecendo das brincadeiras antigas de criança, que até bem pouco tempo atrás costumávamos brincar, nem vou falar das brincadeiras de rua tipo queima ou queimada, bets, amarelinha, esconde esconde… porque não podemos mais deixar as crianças nas ruas, e os espaços nos condomínios estão cada vez menores, mas me refiro ao dominó, a vareta, a dama, xadrez, jogos de regras, jogos de tabuleiro, imagem em ação (o meu preferido), perfil, cai não cai, uno, rouba monte, trilha, resta um, quebra cabeça, cara a cara, pula pirata, cai não cai, e tantos outros brinquedos incríveis que nos tiravam tantas risadas coletivas.

Cheguei onde pretendia!!! Não sou contra a utilização dos tablets, smartphones e computadores (até por que não adiantaria),  penso que eles lançam a criança e o adolescente (e por que não dizer o adulto) a um estado de solidão. O uso desses equipamentos nos acomodou enquanto pais, é seguro, porque tira as crianças das ruas violentas, não machuca como pode acontecer quando a criança joga uma bola ou anda de bicicleta e precisa de supervisão de um adulto e ainda nos deixa independente para fazer “nossas coisas”… afinal elas estão  dentro de casa, no sofá. Babás eletrônicas. Poderia discutir aqui a questão dos conteúdos impróprios, ou dos danos causados ao sono ou a audição e visão pelo tempo exagerado que as crianças e adolescentes passam frente aos equipamentos, mas não quero fazer isso, muitos já estão fazendo, leiam sobre isso… é importante. Quero falar das possibilidades que perdemos de trocas, de relacionamentos… Quando jogamos um jogo de regras (tipo uno, ou rouba monte por exemplo) precisamos ter duas, ou mais pessoas envolvidas, num contato frente a frente, onde o jogo se desenvolve, e junto com ele as risadas, os conflitos, as conversas, as trocas que irão nos ensinando os parâmetros de relacionamento. As conversas que se desenrolam durante uma brincadeira se desdobram em tantas outras que não necessariamente apenas aquelas que envolvem o conteúdo do jogo, se fala do irmão, da escola, do dia que ficou triste, do dia que ficou feliz, do amigo que rouba no jogo, do presente que ganhou, enfim… Possibilidades infinitas…. Esta é uma das tantas diferenças que vejo entre as brincadeiras tradicionais e jogos eletrônicos (mesmo on line). Outra possibilidade envolve o quanto de criatividade se pode imprimir numa brincadeira que aqui chamo de tradicional, trocam se papeis, muda se as regras, cria se os personagens, experimenta se o personagem, cria se a brincadeira… onde estão os carrinhos e as bonecas? Eram eles que nos “ensinavam” os primeiros ensaios para sermos motoristas, pais, professores, médicos, etc., melhor dizendo, eram com eles que treinávamos esses papeis. Podemos também falar da obesidade infantil e do colesterol e nos lembrarmos da corda, do elástico, da amarelinha, da bola, da queima, do pega pega, do caracol..Nossas crianças estão sedentárias, com imunidade baixa, pouco resistentes e cansadas (cansam de andar, de correr, ou quando estão “soltas” ficam desenfreadas e não conseguem parar), tenho visto crianças com “preguiça” de se abaixar para pegar coisas do chão…onde está a elasticidade típica da criança? Muito se perdeu, quando também perdemos algumas de nossas brincadeiras que possibilitavam o desenvolvimento destas habilidades.

Minha ideia, com este texto, é faze-los lembrar das brincadeiras que temos guardadas em nossa memória e das sensações que elas nos fazem ter (são boas não é? deu saudade?), vamos desenterra-las para ensinar aos nossos filhos, netos, sobrinhos, alunos, amiguinhos…

Não pretendo dizer para que tirem os eletrônicos dos pequenos, mas adiem este presente tanto quanto possível, para que desenvolvam em si outras capacidades relacionais e afetivas também importantes, dosem o tempo de uso daqueles que já possuem, ofereçam coisas “novas” (antigos brinquedos e brincadeiras), o nosso antigo é novo para maioria deles. Alguns pais já fazem isso, dosam o tempo de uso dos equipamentos, porem percebo que parte das crianças e adolescentes não sabem como usar este tempo, ou estão nos equipamentos ou estão entediados… estou errada? É exatamente deste tempo fora do equipamento a que me refiro, as crianças precisam de nós para ensina-las a brincar de outras coisas, para BRINCAR COM ELAS, para jogar com elas, para chutar bola, para fazer noite do soninho com o amigo, fazer cabana de cobertor, estrada para carrinho na grama de casa, para jogar rouba monte na noite fria, para ensinar a fazer um bolo e fazer bagunça de farinha, para conversar…

Uma pergunta para terminar a conversa… Vamos diminuir o tempo que seu filho fica no computador? E vamos substituir este tempo pelo que?

Só acho….

Abraço!

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