Foi na minha geração que se popularizaram as primeiras fraldas descartáveis. Minha mãe sempre conta que eram muito caras e ela só as usava em determinadas ocasiões, como visitas ao médico, viagens e festinhas importantes. Essa história se assemelha hoje a uma velha piada.

Copos, pratos, talheres, tudo de plástico. Tornou-se tão trivial o uso de descartáveis, que em nossas festas raramente usam-se copos de vidros. É obsoleto.

Lembro de levar meus sapatos para o sapateiro dar uma “geral” e ficava impressionada como eles voltavam tão renovados. O José caprichava. Um sapateiro de mão cheia! E as roupas? Minha dinda arrumava todas, levava sacolas cheias para ela dar um jeitinho e ajustar ou modernizar elas. Achava isso o máximo. Ambos possuíam uma agenda lotada de serviço, nem adiantava levar às pressas. Sempre tinham suas prateleiras cheias de coisas aguardando seu reparo.

No entanto hoje, os preços muito mais atrativos dos produtos nos guiam cada vez mais para o consumo de coisas novas e não para o cuidado com usado, assim vamos acumulando, descartando…

O problema já seria suficientemente grave em termos ecológicos. Mas o descartável foi além, atingiu pessoas, relacionamentos.

Não existe mais um senso de comprometimento nas nossas relações. Elas são cada vez mais, substituíveis. Relacionamentos passaram a existir para preencher agenda, vazios momentâneos: Não temos tempo!

Estamos imersos no uso de tecnologias, que tudo aquilo que está fora do smartphone e redes sociais é secundário, naturalmente, tudo o que estiver relacionado à agilidade nos cativa. No entanto, embora conectados com o mundo, estamos cada vez mais “sozinhos”.

A cada dia que passa o precipício entre nós e as outras pessoas está se alargando. As visitas estão sendo substituídas por convites para o “Facebook” ou “Instagram” – as novidades contamos por ali. As ligações, substituídas por mensagens no WhatsApp – meu celular pouco toca.

É mais fácil declarar o seu amor nas redes sociais, demonstrar isso “na vida real” dá muito trabalho. E assim seguimos cada vez mais para uma geração de relacionamentos descartáveis: empregos, paixões, amigos. Não temos tempo para conversa fiada.

Sinto que estamos no raso, poucos se arriscam à profundidade.  Com água nas canelas, preferimos livros mais curtos e paixões efêmeras. Não temos tempo para ligar e perguntar se o outro melhorou ou apenas para dizer que sente falta. Ler trilogias? Para quê? Logo lançam o filme.

Trocamos de relacionamentos com a mesma facilidade que o copinho de café, e quando tentamos entender a razão disso, não existe resposta. Assim, as pessoas viram copos descartáveis.

Na contramão disso tudo, nunca se falou tanto em reciclagem. Separamos o lixo e nos engajamos em campanhas do gênero.

O que ainda não aprendemos é que podemos – devemos – fazer isso também com nossos relacionamentos.

Todos temos a nossa parcela “descartável”, mas não, não somos copo ou bituca de cigarro e nem cabemos em um “post-it”. Relacionamentos exigem muito mais que disposição, é preciso constância, perseverança, ou você fará parte de um círculo vicioso com trocas de protagonistas, onde também poderá ser substituído.

E aí?

E aí meu amigo, arrisco a dizer: aprenda a reciclar (coisas e pessoas)!

 

Beijos de luz ;*

@jannacamposp

 

Ps: Esta abordagem refere-se a um ponto de vista de maneira geral, não quer dizer, absolutamente, que devemos insistir em relações desastrosas. Tendeu?

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