Meu príncipe vira ogro… crises de birra, coisa de criança!

Quem nunca viu uma criança berrando e se jogado no chão em um supermercado? Quando vemos uma cena assim às vezes pensamos: por que essa mãe não dá logo o que ela quer para que pare de gritar? Ou ainda: falta umas palmadas…

Para que possamos entender melhor esse comportamento faz-se importante conhecer aspectos típicos do período em que a criança se encontra, bem como situações que desencadeiam esse tipo de conduta. A birra é um comportamento que se observa quando a criança se vê em uma situação de frustração. É uma resposta emocional intensa da criança a algo que a frustrou ou que ela pensa que vai frustrar. Pode envolver choro, gritos, se jogar no chão, ficar paralisado, ficar mudo, agredir-se, agredir alguém, morder, unhar, urinar, parar de comer.

Embora ruidosas, desesperadas e embaraçosas (principalmente em público) as birras não são mais do que manifestações da vontade da própria criança que, por volta dos 2 ou 3 anos, apercebe-se que já se pode fazer ouvir e a maneira que será ouvida. O comportamento infantil difere de criança para criança, sendo que algumas contestam mais os limites e as regras impostas pelos adultos do que outras.

Gritam, choram, dão pontapés, agitam os braços, deitam-se no chão, atiram brinquedos e objetos por situações muito simples: não querem comer a sopa, não querem tomar banho, não querem dormir, querem aquela boneca ou o doce do supermercado. Manifestam seu “quero” e “não quero” porque já se aperceberam que é possível manifestarem suas vontades – agora se essas são satisfeitas ou não, isso já é outra história.

Birra 02

As crianças costumam ter essa reação porque não são maduras ainda para lidar com a frustração. Isso significa que podemos considerar esperado que uma criança pequena reaja assim. E essa é uma ótima ocasião para os pais e/ou cuidadores trabalharem a aceitação da criança à frustração, orientando, explicando, enfim, ajudando a encontrar maneiras ‘mais adequadas’ de manifestar suas necessidades.

As birras são uma manifestação saudável das emoções, sentimentos, vontades e necessidades das crianças. Afinal, estão a desenvolver sua personalidade, só não sabem como expressar-se da melhor forma, porque nas suas cabecinhas (de criança pequena) apenas querem satisfazer a necessidade imediata – nesta altura das suas vidas não têm qualquer outra preocupação ou entrave, se não a contestação.

Na prática em consultório, são muitas as mães e pais, e até avós cuidadores que nos procuram para aprender lidar com as crises de birra de seus pequenos, que caso não trabalhadas, podem tornar-se um tormento, e até uma restrição, já que algumas famílias deixam de levar a criança birrenta aos compromissos cotidianos evitando assim as situações constrangedoras que elas impõe.

crises de Birra 03

Segue então algumas reflexões que podem ajudar neste trabalho de controle das crises de birra.

»» Em primeiro lugar, os pais devem dar o exemplo, ou seja, devem mostrar que estão controlados, pois não é incomum que os pais também se desestabilizem nessas situações. É importante entender qual é o motivo da insatisfação, ou seja o que desencadeou a birra. Mas também é preciso ter em mente que nem sempre será possível estabelecer com a criança uma conversa nessa hora, ante gritos e pernadas, desta forma, deixe-a fazer a birra (ignore), não fale muito (ela não vai ouvir mesmo), espere passar, proteja-a para que não se machuque e quando ela estiver mais calma, aí sim, converse. Como parte da birra envolve chamar atenção, quando a criança ficar birrenta evite que todo mundo fique dando atenção, retire-a do local se formar publico para “assisti-la”. Leve-a para um local reservado, monitorando-a. Não a deixe sozinha sem supervisão de um adulto, procure só conversar com ela quando os gritos e choro já estiver acabado.

»» Castigar a birra é muito complicado. Não é garantia de que outra crise não ocorrerá. O antigo ditado “está pedindo para apanhar” é muito verdadeiro, uma vez que a criança pode repetir a birra, mesmo sabendo que irá ser castigada, afinal dependendo do castigo (mesmo a palmada) também é uma forma de atenção. O que costuma funcionar é manterem uma postura enérgica: após a birra, converse com a criança dando-lhe apoio para entender seu comportamento e explique formas saudáveis de como lidar com a frustração. Explique porque não pode, que os adultos também passam por isso e como fazem quando isso acontece.

»» Converse sobre a birra, mas não faça um longo sermão. Crianças pequenas não prestam atenção a conversas longas e cheias de argumentos. Quanto menor a criança mais pontual e objetiva deverá ser a conversa.  Os pais podem falar com calma, usando poucas palavras. O fundamental é explicar a criança o que ela sentiu durante o descontrole emocional, nomear o sentimento e dizer como ela deve lidar com ele: “você pode pedir, pode chorar baixinho, mas não pode jogar se no chão e gritar, você pode dizer para mim que está triste e brava mas não pode me morder e chutar”. Faça isso SEMPRE após a crise ter passado.

»» Crianças pequenas precisam de rotina e previsibilidade. Por isso, segundo Christine Bruder, psicóloga, é interessante preparar a criança para a situação que ela for enfrentar. Se forem ao shopping, por exemplo, estabeleça as regras do passeio, diga se irão ou não comprar algo para ela, quanto tempo ficarão por lá, etc., dê seu exemplo, peça cooperação da criança. “Também é preciso respeitar o descanso da criança. Quando ela está cansada ou doente, é mais fácil ocorrer a birra”.

»» Depois, na volta do passeio, é interessante dar um retorno para a criança de como foi seu comportamento. “Isso ajuda muito, pois ela passa a entender o que os pais esperam dela. A criança pequena deseja agradar os pais e ficará feliz com o orgulho deles. Devemos como pais valorizar o acerto da criança, pois acabamos dando mais atenção ao que ela faz de errado”, diz a psicóloga Rita Calegari.

! Lembre-se também que nem sempre o shopping é passeio para criança, elas na maioria das vezes não apreciam ver vitrines ou experimentar roupas.

De forma objetiva segue algumas dicas:

  1. Não perca o controle: seja firme, mas também acolhedor.
  2. Não ceda aos apelos da criança e mantenha a palavra (“só desta vez” é pior que nunca ou sempre – reforço intermitente faz aumentar o comportamento, pois a criança nunca sabe quando ganhará, fará birra sempre)
  3. Dê exemplos: sair batendo porta dentro de casa não é um deles.
  4. Não dê atenção à birra, deixe que chore até que a crise passe, assim que passar converse com ela calmamente.
  5. Castigos devem ser proporcionais (sujou-limpou, jogou-juntou, bagunçou-guardou, fez birra-‘vamos embora’ sem o passeio, sem o lanche)
  6. Não meça forças com a criança. Explique o que ela está sentindo e veja o que está acontecendo.
  7. Não insista em conversar na hora da raiva
  8. Elogie SEMPRE seu comportamento adequado frente a frustração
  9. Substitua a atenção dada na hora da birra por atenção em momentos tranquilos (aqueles em que normalmente aproveitamos que estão quietas para fazer outras coisas), vale trocas: um dia sem birra vale brincadeira com os pais a noite, filme, sorvete, bolo (que tal fazer um bolo com ela?)
  10. Verifique A ROTINA da criança, se a birra acontece no mesmo horário ou período, vale reavaliar como essa rotina vem sendo conduzida (hora das refeições, hora de ir para escola, etc.)

Quando compreendemos que a birra foi a forma que a criança encontrou de conseguir se fazer ouvir, ou ainda de conseguir o que quer (na base do grito), deve vir em nossa mente que ela precisa reaprender a fazer isso de forma mais saudável e tranquila e ela não conseguirá fazer (ou refazer) isso sozinha, é preciso que todos que estão envolvidos em sua rotina (pais, avós, babas, tios e professores) se envolvam nesta tarefa, procurando adotar a mesma postura frente as crises. Em casos específicos, quando os pais se sentem profundamente angustiados e impotentes frente as crises, ou ainda quando as crises tomam uma proporção difícil de ser controlada vale a pena buscar ajuda de um profissional, que certamente orientará a melhor forma de lidar com a situação.

Abraço,

Helena.

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1 comentário

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Camia Pusebo 18 de abril de 2016 - 16:45

Nossa, muito boa a matéria, mesmo para nós que já estamos “cansados” de saber do assunto, é sempre bom refrescar a mente com essas dicas, sempre tem coisas a relembrar.. muito bom.. ontem mesmo conversávamos sobre isso em família, muito bom!!

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