Carta de Carolina

Num mundo tão cruel, onde a maldade emerge todos os dias dos lugares mais improváveis, o amor cobre tudo com sua luz. Isso foi o que eu aprendi mesmo antes de conhecer o mundo aí fora.

Vou explicar melhor, me chamo Carolina, ainda estou na barriga da mamãe, mas estou prestes a vir ao mundo a qualquer momento. Ainda aqui, na barriga da minha mamãe eu já fui vítima de uma pessoa má, que certamente culpa o sistema e se apoia nos ditos direitos humanos para se transformar em vítima enquanto na verdade é o opressor.

Todas as pessoas que me amam, com muito amor e carinho me encheram de presentinhos, meus papais trabalharam muito para preparar a minha chegada. Eu sei que antes de eu existir, a casa deles era azul, por causa do meu irmãozinho Miguel, mas quando eles souberam que eu sou uma menina, trataram logo de misturar azul com cor de rosa. Ficou tudo lindo. Meu quartinho pronto me esperando e minhas roupinhas já estavam cheirosas porque eu sei que a minha vovó ajudou a mamãe a lavar tudinho.

Mas teve um dia que a mamãe voltou pra casa e encontrou tudo bagunçado, sujo e com um grande vazio. Eu sei que ela chorou porque deu pra sentir aqui de dentro. Eu chutei bastante pra ver se ela me respondia, mas ela estava em choque e eu pude sentir a angustia dela da maneira mais doída.

Uma pessoa sem coração entrou na nossa casa e levou todas as minhas roupinhas, fraldas, sapatinhos. Levou as roupas do meu maninho, da mamãe e do papai também. Eu ainda não sei o que é iogurte, mas sei que essa pessoa levou até os iogurtes da geladeira e tomou as cervejas do papai.

Eu senti a dor dos meus pais, senti a tristeza na voz embargada dos meus avós e entendi a decepção do meu irmãozinho quando ele descobriu que as coisas do seu quartinho também tinham sido levadas. Tive medo de vir ao mundo.

Aqui é tão quietinho. Eu só recebo amor. Embora eu não tenha visto ainda os rostos das pessoas que tanto me esperam, eu reconheço elas pela voz. Elas conversam muito comigo, eu sinto quando elas passam a mão na barriga da mamãe e às vezes dou uns chutinhos pra mostrar que também amo eles.

Mas o que eu quero mesmo dizer é que não vejo a hora de nascer, porque a maldade de quem entrou aqui em casa e esvaziou as prateleiras não foi grande o suficiente para esvaziar o coração das pessoas boas. Assim, eu descobri que existe muito mais amor no mundo do que maldade.

Ganhei muitos presentes, de tantas pessoas queridas que já nem sinto falta daquelas que foram levadas. Cada pacotinho que minha mamãe abria, vinha com mais amor ainda, cada pequeno gesto emanou um amor tão grande, mas tão grande que eu não vejo a hora de sair daqui para poder sorrir pra cada uma delas como forma de agradecimento por tanto amor e carinho por mim e pela minha família.

A cada um de vocês que alimentou o amor a ponto de ele ser maior do que a maldade, já pedi pro meu anjinho da guarda conversar com Deus pra que Ele cuide de tudo pra que esse sentimento nunca se apague no seu coração, mas eu confesso que pedi também pelo cara mau que entrou lá em casa, o coração dele é tão escuro que ele precisa aprender o que é amor.

Meu coraçãozinho está pronto para vir ao mundo, cheio de amor e respeito ao próximo, já aprendi a maior lição: nada vale mais a pena do que acreditar nas pessoas de bem. Até loguinho.

Com amor, Carolina.

PS: Esse texto eu cochichei pra minha tia Jana, porque eu ainda não sei escrever, e a foto foi o Robson Souza que tirou da minha linda família.

 

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