Este texto tem por objetivo compartilhar com os pais e cuidadores algumas reflexões sobre a ansiedade que algumas crianças manifestam ao separar-se das pessoas significativas para ela. Não pretendo esgotar o assunto, já que muito pode ser explorado sobre o mesmo.O momento de separar-se dos pais, ou daqueles que cuidam mais tempo da criança (avós, babás, tios, professores), pode ser para alguns um momento bastante complicado. É geralmente comum que as crianças ainda bastante pequenas (8/9 meses) chorem ao se separarem da mãe, esse comportamento é descrito como ansiedade de separação e é tido como um comportamento “típico” deste período do desenvolvimento, nem toda criança manifesta, porém em outras o comportamento é bastante visível e acompanhado de choro, gritos e certa angustia dos pais que temem deixar os pequenos “desamparados” e chorando. É importante salientar que bem conduzido tende a diminuir e até cessar, pois a criança aos poucos irá percebendo que esta figura de apego “vai e volta”. Sentindo-se mais segura deste retorno esta ansiedade irá diminuindo e este comportamento também. Em outros ciclos da vida da criança podemos também perceber comportamentos similares, ansiedade caracterizada por choro, birra, queixas de dores específicas, mal estar e/ou medo em momentos em que algum dos pais ou ambos precisa sair de casa ou afastar se da criança. Quando isso acontece é preciso que a família consiga avaliar o que pode estar gerando ansiedade na criança, uma dor que a criança ainda não sabe explicar, cuidadores inabilidosos (que ficam com a criança quando os pais saem), conflitos conjugais ou parentais que são sentidos pela criança como uma ameaça, morte na família ou de pessoas próximas, medo de algo especifico (acidente, por exemplo) ou de que algo possa acontecer aos pais ou com ela na ausência dos mesmos, insegurança quanto ao amor que os pais tem por ela, etc.. Enfim, uma série de circunstâncias, às vezes reais, outras imaginadas pelas crianças podem gerar ansiedade de que algo possa lhes acontecer caso se separe dos pais. Por exemplo, é comum que crianças fantasiem que podem controlar brigas entre o casal, pois acreditam que quando estão por perto os pais se controlam ou que nada de ruim irá acontecer pelo simples fato de estarem ali, desta forma temem não estar junto deles e sentem-se muito ansiosas ao precisarem ir a escola, por exemplo. Um dos casos que atendi, tratava-se de uma criança de 7 anos que apresentava intenso medo de separar-se da  mãe pois temia a morte da mesma em uma catástrofe. Inacreditavelmente, o sintoma teve inicio ao assistir pela TV noticias sobre um terremoto em outro país e o sintoma foi se estendendo para medo de que a mãe ficasse doente, ou sofresse um acidente ou não pudesse mais buscá-la no colégio. Desta forma, é bastante importante entender a lógica da criança para sua ansiedade, uma vez que para “nossa cabeça adulta”, as vezes, seu medo parece ser ilógico.

Alguns pais para evitar a sessão de choro da criança ao sair de casa, saem escondidos, ou mentem para criança. Essa conduta de nada adianta e piora o quadro ansioso, uma vez que aumenta a ansiedade de que os pais podem “desaparecer” sem que ela saiba, ou até de que não pode confiar neles (no caso da mentira). Mesmo sabendo que a criança irá chorar, é importante despedir-se dela e assegurar-lhe de que irá voltar assim que puder. O choro dura um determinado tempo, mas logo se acalma e a criança se restabelece, diminuindo gradativamente a ansiedade sentida nos momentos de separação. Os pais precisam também trabalhar com sua ansiedade frente a esta separação, pois não é incomum vermos pais mais ansiosos ao deixar o filho pela primeira vez na escola do que a criança, e como não chorar na porta da escola ao sentir que a mãe está com medo de deixá-la ali, ou quase não consegue entregá-la à professora na porta da escola? Nos casos em que existem conflitos parentais, estar atentos ao reflexo destes conflitos no comportamento da criança e procurar ajuda para resolvê-los parece ser o mais adequado, uma vez que a criança não tem maturidade suficiente para compreender alguns problemas, ela os percebe e sente seus reflexos, porém não dispõe de mecanismos internos para resolvê-los, desta forma pode ficar ansiosa diante deles e até adoecer. Conversar com a criança, tentar entender seu medo, acalmá-la, combinar que poderá ligar se não se sentir bem, que você voltará em tal horário (cumprir todos os combinados), deixar uma peça de roupa com o cheiro da mãe, ou do pai (vestir um travesseiro ou almofada com uma camiseta usada pela mãe) pode ajudar a diminuir a ansiedade, mas é preciso avaliar caso a caso qual a situação ou as situações que estão gerando esta ansiedade e a idade da criança que a sente, afinal este comportamento pode ser como febre ou dor para uma doença … ou seja SINAL DE ALERTA de que algo não vai bem.

Se o problema persistir por muito tempo e causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízos no funcionamento social, escolar ou em outras áreas importantes da vida da criança faz-se fundamental avaliação clinica para diagnóstico, uma vez que pode se desenvolver em casos extremos Transtorno de Ansiedade de Separação, exigindo intervenção terapêutica especifica e em alguns casos até medicamentosa. Procure ajuda de um profissional.

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