Alergia Alimentar: Entre Mitos e Verdades

Sou Ana Paula Juliani, Médica Especialista em Alergia e Imunologia e aceitei o convite para falar um pouco sobre alergias, intolerâncias e todos os mitos que cercam esses temas atualmente.

Já foi bem mais fácil servir um lanche para os amigos de seu filho ou mesmo chamar os amigos pra jantar. Nos dias atuais às vezes temos a impressão de que todos têm alguma restrição alimentar.Por esse motivo esse assunto é tão relevante e espero poder ajudá-los a desvendar e compreender  um pouco deste mundo em nossas conversas quinzenais.

Que a incidência de Alergia Alimentar têm aumentado no mundo, é fato, mas da mesma forma que nem tudo que coça é micose, nem tudo que parece é alergia alimentar. A prevalência de Alergia Alimentar encontra-se na casa dos 2-3% quando falamos em adultos, mas é nas crianças , sobretudo as menores de 3 anos, que este diagnóstico encontra-se mais freqüente – cerca de 6%.

Mas antes de falarmos sobre Alergia e suas peculiaridades temos que entender as diferenças entre
ALERGIA ALIMENTAR e INTOLERÂNCIA ALIMENTAR.

Tanto a Alergia Alimentar quanto a Intolerância Alimentar são reações de Hipersensibilidade alimentar, porém completamente diversas.

A Alergia Alimentar nada mais é que  uma reação adversa às PROTEÍNAS alimentares caracterizada por uma reatividade imunológica  anormal .

A Intolerância alimentar é a resposta adversa causada por algumas características da pessoa, como no caso das reações metabólicas e deficiências enzimáticas. Exemplo clássico é a Intolerância à lactose, isto é, o indivíduo têm uma quantidade reduzida da enzima lactase, portanto não faz a digestão adequada do açúcar do leite, a lactose, e por isso apresenta sintomas exclusivamente gastro-intestinais (empachamento, flatulência, distensão abdominal e até mesmo uma diarreia aguda) quando ingere leite e derivados.

As intolerâncias, ao contrário das alergias, são dose dependentes (se eu comer muito terei mais sintomas) ao contrário das alergias. Além disso, as intolerâncias não levam a risco de morte como podem levar as alergias. É  mais comum em adultos do que em crianças. Com o avançar da idade, existe uma tendência natural ao desenvolvimento de Intolerância à lactose.

Com isso aprendemos que dizer “alergia à lactose” é um enorme equívoco. Correto é dizer Intolerância à lactose. E se nos referirmos a alergia ao leite, devemos dizer “Alergia à PROTEÍNA do leite”. Num primeiro momento parece meio confuso, mas no decorrer de nossa conversa vai ficar cada vez mais claro.

Outro clássico é a Intolerância ao Glúten chamada de Doença Celíaca que trata-se de doença crônica, não curável, necessitando dieta para toda a vida. Seu diagnóstico ocorre através de Endoscopia digestiva com biópsias e testes genéticos e são os Gastroenterologistas que acompanharão estes pacientes. Descendentes de europeus mediterrâneos são os mais suscetíveis a esta  doença genética.

As alergias alimentares podem ser decorrentes de dois mecanismos imunológicos diversos e, em alguns casos ambos estão presentes. 

Compreendem as reações mediadas por anticorpos da classe IgE e reações mediadas por linfócitos (reações celulares não mediadas por IgE). Entretanto, isso é o médico quem tem que saber. Para vocês, basta compreender que as alergias mediadas por anticorpo IgE (aqueles que têm testes alérgicos positivos – Teste de puntura e a dosagem de IgE específica no sangue) são aqueles que apresentam sintomas imediatos que surgem em questão de minutos após a ingestão do alimento, como urticária, vermelhidão, vômitos em jato, sintomas respiratórios e até uma de reação anafilática com risco de morte. Estes pacientes devem receber informações precisas através de um Plano de Ação emergencial com Adrenalina auto injetável e medicações em caso de intercorrências.

Já as Alergias Alimentares não mediadas por IgE são aquelas que se manifestam com sintomas como sangramento nas fezes de bebês muito jovens, diarreia crônica levando a deficiência de crescimento, dermatites graves que não melhoram com o tratamento habitual e até mesmo associação com doença do refluxo gastro esofágico. Estes sintomas são mais tardios e costumam aparecer em horas e até alguns dias após a exposição alimentar.

Quando falamos em alergias mistas (mediadas por Ige e não mediadas) pensamos nos diagnósticos de Dermatite atópica e Esofagite eosinofílica.

Fazer um diagnóstico errôneo, rotulando a pessoa como portadora de uma determinada alergia alimentar não sendo alérgica, pode ser muito prejudicial, podendo levar à adoção de dietas demasiadamente restritivas, principalmente na infância e consequentemente a um deficit nutricional. Além disso, a carga emocional e psicológica no paciente e seus familiares pode ser extrema.

Daqui a 15 dias eu volto e falaremos  sobre o diagnóstico desta patologia que estudo há mais de 20 anos e pela qual me encanto a cada dia.

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2 comentários

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Adriana Miranda 24 de maio de 2017 - 16:19

Dra Ana Paula meu filho de 6 anos tem esofagite eosinofilica descobri a quase 3 anos estou nessa luta, ele já fez cirurgia do esofago e já fizeram testes de alergia e não descobre essa alergia …faz 6 dias q peguei o resultado de uma nova biopsia e veio q ele tá com microabssessos no esogafo …se puder me ajudar pois não consigo descobrir nem um medico de Londrina especialista nesse caso …obrigada

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Ana Paula Juliani
Ana Paula Juliani 28 de maio de 2017 - 22:47

Olá Adriana. Desculpe a demora! A Esofagite eosinofílica é um diagnóstico relativamente recente e Alergistas que trabalham com Alergia Alimentar em conjunto com Gastroenterologistas são os profissionais capacitados para lhe ajudar. Caso ainda não tenha encontrado um profissional, entre em contato com nossa clinica que podemos te ajudar. Abraço, Ana.

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