Alergia alimentar mata!

Quando nos deparamos com situações como a recente notícia do óbito de um rapaz por alergia a camarão, repensamos a necessidade de informação não só ao paciente e à sua família mas também à população geral e aos profissionais de saúde.

As alergias alimentares, como já comentei em posts anteriores, podem ser MEDIADAS POR IgE ou NÃO MEDIADAS POR IgE. Em dependência dos sintomas apresentados após a ingestão do alimento se faz, pela lógica do raciocínio fisiopatológico, a suposição do mecanismo envolvido e a investigação sistemática é realizada pelo Alergista antes da definição do diagnóstico. Sabemos que as reações IgE mediadas são aquelas imediatas com um perfil de gravidade maior podendo levar à anafilaxia.

Não minimizando as reações Não IgE mediadas que sabemos causar muito desconforto visto que na sua maioria trata-se de sintomas gastro intestinais, entretanto o risco de vida inexiste.

A anafilaxia pode ocorrer de minutos até 1 hora após a ingestão do alimento e pode evoluir para Choque Anafilático e óbito. Todo paciente com diagnóstico confirmado de Alergia Alimentar IgE mediada deve portar consigo um Plano de Ação onde está escrito como proceder em caso de reação até chegar a um serviço de emergência. A Adrenalina auto injetável deve ser portada por esses pacientes em situação de risco pois é ela que literalmente salva suas vidas. É obrigação do médico Alergista informar, ensinar, orientar , prescrever e entregar ao seu paciente este plano emergencial.

Sempre devemos lembrar que 10% das anafilaxias graves foram precedidas por reações leves, portanto não minimizar a potencialidade de uma reação IgE mediada. O uso de anti-alérgicos ou corticoides previamente à ingestão do alimento ao qual o indivíduo é sabidamente alérgico NÃO impede que ocorram reações graves.

De fato a exposição prévia ao alimento repetidamente é o que sensibiliza as pessoas, isto é, produz IgE contra a proteína alergizante deste produto (imunoglobulina da classe IgE) e neste caso em especial ocorreu algo bastante raro pois  nega-se a ingestão anterior do camarão. Provavelmente ele tenha ingerido camarão em algum preparo e nem mesmo tinha conhecimento disso.

Só o fato de alguém ser SENSIBILIZADO a um alimento NÃO FAZ O DIAGNÓSTICO DE ALERGIA ALIMENTAR.

Existe até mesmo uma frase muito atual entre os profissionais Alergistas que trabalham com Alergia Alimentar que é:

Teste de alergia não faz diagnóstico de alergia!

Isso porque um exame  solicitado inadvertidamente sem uma história clínica que associe fortemente tal alimento à reação somado ao Teste de provocação oral realizado por equipe preparada em ambiente adequado para atendimento de emergências, NÃO faz diagnóstico algum de alergia alimentar.

Temos visto uma prática inadequada de solicitação de exames para muitos alimentos de forma aleatória quando sequer o paciente apresenta sintomas que possam ser compatíveis com a suposição de alergia alimentar. Basta que tenha alguma positividade nestes testes esse alimento já é suprimido da dieta desta pessoa. Prática mais do que errada e sim perigosa.

É fato notório e comprovado pela comunidade científica que, se somos sensibilizados e ingerimos o alimento regularmente sem apresentar qualquer reação é porque nossos mecanismos de regulação imunológica estão atuando. Assim que suspendemos esse alimento de nossa dieta, nosso sistema regulador vem a ser “desligado” e em futuras exposições  a este mesmo alimento  existe um grande risco de reações graves até mesmo anafiláticas. Já o consumo regular mantém essa regulação.

Resumindo, essa pessoa era apenas sensibilizada mas não alérgica. Foi suspenso esse alimento da dieta e “gerou” um alérgico. Isso se chama Iatrogenia, isto é, causar uma doença. Pensam que isso ocorre raramente? Adoraria dizer que sim, mas é com muita frequência que vejo casos assim em minha prática diária no consultório. Simplesmente desolador.

Trabalho com alergias alimentares que, de forma transitória ou permanente privam meus pacientes da liberdade de consumir certos alimentos. Certamente isso não tem nada de fácil. Me emociono ao ver a resiliência dessas crianças e sua maturidade na compreensão da necessidade desta dieta naquele dado momento de sua vida. É um aprendizado para mim… Talvez por isso, entre outras razões, levanto a bandeira contra restrições desnecessárias e aleatórias.

Categorizar alimentos como sendo DO BEM e DO MAL me parece muito simplista e ingênuo e até mesmo meus pequenos pacientes conseguem enxergar mais complexidade na vida. Como a própria palavra já diz -“indivíduo”- requer atenção e cuidado individualizado com muita ciência e estudo regado a mais humanidade ainda.

Estamos “entrando na casa” de nossos pacientes e de suas famílias quando alteramos sua dieta. Seria um desrespeito baseado em despreparo intervir na vida das pessoas sem um correto diagnóstico e uma certeza absoluta de que aquela restrição é necessária para a manutenção da vida daquele ser.

Espero ter elucidado algumas dúvidas com esse meu texto que mais parece um desabafo.

Até breve. Fiquem bem.

Ana Paula Juliani.

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